MP das bets ainda sem votação: o que a família faz agora
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centroAtualizado em 23/10/2026

A medida provisória que proíbe as bets já está em vigor, mas o Congresso ainda não a votou. As autorizações das empresas são formalmente extintas em 25 de outubro; o que acontece depois disso na votação não está decidido. A família não precisa esperar: o plano em casa vale com ou sem a lei.
Quem convive com alguém que apostava costuma respirar aliviado quando lê "bets proibidas". O alívio é compreensível, e merece um cuidado: proibição é uma notícia; recuperação é um processo.
O que a MP das bets já mudou na vida de quem apostava?
A MP 1.394/2026 foi publicada em 25 de setembro. Segundo o resumo do Senado Notícias, o texto prevê:
- fim dos depósitos nas contas dos apostadores e prazo até 5 de outubro para retirar o saldo;
- sites e aplicativos indisponíveis, inclusive nas lojas de aplicativos, a partir de 6 de outubro;
- bancos e instituições de pagamento impedidos de processar transações de apostas, inclusive por Pix, exceto as de encerramento e devolução;
- proibição de publicidade e de patrocínio de apostas de quota fixa;
- extinção formal das autorizações das empresas em 25 de outubro.
Nada disso depende de a família fazer algo. Mas também nada disso trata a pessoa que apostava.
A MP ainda não foi votada: em que pé está?
Segundo a página da MP no Congresso, o prazo inicial de vigência vai de 25 de setembro a 23 de novembro de 2026, o regime de urgência começa em 9 de novembro e o prazo para emendas terminou em 13 de outubro, com 99 emendas apresentadas. Na consulta feita em 23 de outubro, a comissão mista ainda aparecia como "aguardando instalação". A Rádio Senado informa que o Congresso tem até 120 dias para votar o texto.
Em linguagem simples: a proibição está valendo, o texto pode ser mudado pelos parlamentares e a decisão final ainda não saiu. Quem quiser acompanhar deve olhar a página oficial, porque o andamento muda de semana em semana.
Dá para contar só com a proibição como proteção?
Não. Por três motivos que o próprio texto da MP ajuda a entender:
- O texto prevê bloqueio de sites e um sistema do Banco Central para rejeitar transações de apostas ilegais. Ou seja: o próprio governo trata a possibilidade de apostas ilegais como um risco real.
- A MP não trata da pessoa. Quem tinha o hábito de apostar continua com a vontade, o endividamento e o estresse que a acompanhavam.
- O que se aprova numa lei pode mudar na votação. Um plano de família que dependa dela fica frágil.
Para entender o quadro de fundo, veja vício em bets: quando o jogo vira dependência e como ajudar sem afundar junto.
Que sinais mostram que o apostador procurou outro caminho?
Sem acusar e sem vigiar, vale perceber mudanças de rotina:
- celular sempre virado para baixo ou levado até ao banheiro;
- pedidos de Pix pequenos e repetidos, sem explicação;
- humor muito oscilante, com irritação quando o dinheiro é tocado no assunto;
- aplicativos novos, perfis desconhecidos, promessas de "ganho certo" de amigos;
- mentiras sobre horário, trabalho ou saldo.
Nenhum desses sinais prova nada sozinho. Eles servem para abrir uma conversa calma, não um julgamento. Um pedido de conversa feito com carinho também é uma forma de a própria família receber orientação antes de falar com a pessoa.
O que a família combina hoje, sem esperar o Congresso?
- Escolha a hora da conversa. Nunca no meio de uma briga nem com a pessoa irritada. Comece pelo que você sente e viu, sem rótulos.
- Combine regras sobre o dinheiro da casa. Contas essenciais pagas direto, cartão e senhas de uso comum guardados por quem não aposta, valores em dinheiro sempre combinados.
- Ofereça ajuda para a autoexclusão. Ela é um ato da própria pessoa; veja como bloquear o CPF nas casas de apostas.
- Procure tratamento antes da crise. Consulta, grupo de apoio e acompanhamento de saúde mental são o caminho mais leve; o tratamento para dependência química existe para casos em que isso não basta.
- Cuide de quem cuida. A família que se esgota acaba cedendo a qualquer promessa. Grupos de apoio para familiares existem para isso.
Que erros evitar enquanto a votação não acontece?
- Relaxar a atenção porque "agora é proibido". A vontade de apostar não mora no aplicativo.
- Cobrar todo dia o que a pessoa fez com o dinheiro. A cobrança constante desgasta a relação e esconde o assunto.
- Pagar dívida escondida sem conhecer o tamanho do problema. Antes de qualquer pagamento, junte extratos e faça uma lista com a pessoa.
- Acreditar em quem promete devolver ou recuperar o dinheiro por taxa antecipada.
- Esperar a crise para buscar ajuda. Conversar cedo com profissionais de saúde mental é mais simples do que decidir sob pressão.
E a dívida e os golpes? A MP resolve?
Não resolve. A dívida feita com cartão, empréstimo ou Pix continua existindo, e quem está ansioso por dinheiro é alvo fácil de golpe. Leia o que se sabe sobre o Desenrola 3.0 e a dívida de apostas e como a família se protege do golpe da devolução das bets. Moradores de Salvador e de toda a Bahia podem conversar com a nossa equipe sobre o próximo passo.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o plano terapêutico individual é feito com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, a família junto e sigilo. Pergunte se o serviço atende o perfil da pessoa que você quer ajudar.
A internação pode ser uma possibilidade?
Sim. A internação pode fazer parte do tratamento da dependência química, do alcoolismo ou de quadros de saúde mental quando os cuidados fora do hospital são insuficientes. A indicação depende de avaliação médica individual — não é necessária para todas as pessoas e não deve ser decidida apenas pela leitura de um artigo.
No Centro Terapêutico Amor em Cristo Bahia, você pode conversar com a equipe sobre essa possibilidade e os próximos passos. Antes de qualquer decisão, confirme se o serviço atende à idade, ao perfil e às necessidades da pessoa, além das condições de atendimento. O contato pelo WhatsApp não garante vaga nem substitui a avaliação médica.
Conforme o art. 4º da Lei 10.216/2001. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
As bets já estão fechadas para todo mundo?
Pela medida provisória, os sites e aplicativos deveriam ficar indisponíveis desde 6 de outubro, e as autorizações das empresas são formalmente extintas em 25 de outubro. Mesmo assim, uma proibição por norma não impede, sozinha, que alguém procure outro caminho. Por isso o combinado em casa continua importante.
O dinheiro que ficou na bet volta?
O calendário oficial previa a devolução dos saldos pelos bancos até 14 de outubro, identificados pelo CPF. O que não pudesse ser devolvido iria para uma conta específica na Caixa. Quem não recebeu deve procurar o próprio banco, nunca um estranho que cobre taxa para “liberar”.
Quem aposta pode ser internado só por causa das bets?
A internação depende de avaliação médica e de os cuidados fora do hospital não bastarem, como em qualquer outro quadro. Antes disso, existem etapas mais leves, como consulta, grupo de apoio e acompanhamento. Quando o jogo vem junto com depressão profunda ou ideias de morte, a avaliação deve ser urgente.
Posso bloquear o CPF do meu familiar sem ele saber?
Não. A autoexclusão é um ato da própria pessoa. O que a família pode fazer é conversar, oferecer ajuda para fazer o pedido e combinar regras sobre o dinheiro da casa, sem invadir contas ou celulares de adulto.
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