Família e bets: como ajudar quem é “viciado em apostas” sem afundar junto

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 18/10/2026

Para ajudar alguém que é “viciado em apostas”, a família precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo: proteger o dinheiro da casa e abrir caminho para o tratamento. Na prática, isso significa não pagar as dívidas no escuro, separar as finanças, conversar sem acusar e levar a pessoa a uma avaliação profissional, mesmo agora que as bets foram proibidas. Brigar e vigiar o celular raramente funciona.

Descobrir as apostas costuma vir junto com o choque das mentiras e das dívidas, e é normal sentir raiva e vergonha ao mesmo tempo. Você não precisa resolver isso sozinho.

Por que a família sente o golpe antes de quem aposta

O jogo pode passar meses invisível. Não tem cheiro, não deixa a fala enrolada, acontece no celular, no banheiro, de madrugada. Por isso, quase sempre quem percebe primeiro é a família: a conta que não fecha, o empréstimo que aparece no nome de alguém, o Pix que sumiu do salário, o objeto que foi vendido.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, para cada pessoa que aposta em nível de alto risco, em média outras seis são afetadas, em geral gente que nem aposta. Entre os danos que a ficha da OMS sobre jogo lista estão o rompimento de relações, a violência familiar, o aperto financeiro e o dinheiro desviado das despesas básicas da casa, como comida, moradia e saúde.

A OMS também descreve o transtorno do jogo ao lado dos transtornos por uso de substâncias, com três marcas: perda de controle, o jogo ganhando prioridade sobre o resto da vida e a continuação apesar dos prejuízos. Ou seja: não é só “falta de vergonha”. É um problema de saúde que tem tratamento, assim como a dependência química é considerada doença.

As dúvidas que mais chegam até nós

Muitas famílias nos procuram com perguntas parecidas. As mais comuns:

  • “Ele jura que vai parar e no dia seguinte aposta de novo. Ele está mentindo para mim?” Muitas famílias contam o mesmo roteiro: perdas escondidas, motivos inventados para pedir dinheiro e a promessa de recuperar o prejuízo “com a próxima”. Isso não apaga o afeto, mas mostra que a promessa sozinha não basta.
  • “Se eu pagar tudo, ele recomeça do zero?” Em geral, não. Quitar as dívidas sem um plano tira a pressão que poderia levar ao tratamento e devolve crédito para apostar.
  • “A culpa é minha por não ter visto antes?” Não. Como lembra a OMS, o jogo on-line está disponível quase em qualquer lugar e a qualquer hora, e pode ser feito sem ninguém perceber.
  • “Ele não usa droga. Clínica serve para isso?” O jogo pode exigir avaliação de saúde mental, sobretudo quando vem junto com álcool, outras drogas, depressão ou pensamentos de morte. Pergunte a cada serviço se ele atende esse perfil.

Como ajudar quem é “viciado em apostas”: o que fazer hoje

Antes da conversa, proteja a casa. A ordem importa: primeiro o que evita um prejuízo maior, depois o diálogo.

  1. Separe o dinheiro da família. Salário, aposentadoria e reservas da casa em conta à qual a pessoa não tenha acesso. Troque as senhas que ela conhece e não guarde cartão e senha juntos.
  2. Não assine nada. Nada de ser fiador, avalista ou de fazer empréstimo no seu nome “só para cobrir um buraco”.
  3. Peça a lista completa das dívidas, por escrito. Credor, valor, data e em nome de quem. Pagar sem saber o tamanho do problema é como tirar água de um barco furado.
  4. Não pague dívida de aposta de forma automática. Se houver uma conta essencial em risco, como luz ou aluguel, pague direto ao credor, nunca entregando o dinheiro na mão. Veja por que dar dinheiro pode alimentar o problema.
  5. Combine poucos limites e cumpra. Por exemplo: “não empresto dinheiro, mas pago a consulta”. Há um passo a passo em como colocar limites sem romper o vínculo.
  6. Procure apoio para você. Existem grupos de ajuda mútua para quem aposta, como os Jogadores Anônimos, e para familiares, como o Gam-Anon. Orientação psicológica também ajuda a sair do papel de “caixa” e de “polícia” da casa.

Como conversar sem virar um interrogatório

A tentação é chegar com o extrato impresso e começar pelo prejuízo. Isso costuma gerar defesa e mais mentira. Um roteiro que funciona melhor:

Em vez de dizerTente dizer
“Você é um irresponsável, jogou tudo fora.”“Eu vi as apostas e as dívidas. Estou preocupado com você e com a gente.”
“Jura que nunca mais vai apostar.”“Promessa a gente já tentou. Agora quero um passo concreto.”
“Me passa a senha do banco agora.”“Vou proteger o dinheiro da casa. Isso não é castigo, é cuidado.”
“Ou para, ou eu vou embora.”“Eu te ajudo a procurar tratamento. Com o jogo, eu não vou mais contribuir.”

Escolha um momento calmo, longe de uma perda recente. Fale de fatos e de sentimentos, não de caráter. E termine com uma proposta clara: uma avaliação, uma consulta, um grupo de apoio visitado juntos. Se a pessoa nega o problema, veja também como convencer alguém a aceitar tratamento.

Bets proibidas: o que muda dentro de casa

A Medida Provisória nº 1.394, de 25 de setembro de 2026, proibiu no país a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo as apostas esportivas e os jogos on-line (art. 1º). Medida provisória vale desde a publicação, mas perde a eficácia se não for convertida em lei pelo Congresso no prazo da Constituição (art. 62, § 3º); acompanhe as notícias. Para a família, a proibição ajuda, mas não encerra o problema. Três cuidados:

  • O dinheiro que volta. Pelos arts. 7º a 9º, os saldos e os valores das apostas em aberto são devolvidos para conta de titularidade do próprio apostador, identificado pelo CPF. A família não tem como desviar esse valor, mas pode combinar com ele, antes de o dinheiro cair, para onde vai: uma dívida, uma conta da casa, o tratamento.
  • Os sites clandestinos. Quem perdeu o controle pode migrar para páginas que funcionam fora da lei, sem nenhuma proteção. Proibir a oferta não trata a dependência, que continua na pessoa.
  • O alívio enganoso. É tentador achar que o problema acabou junto com os aplicativos. As dívidas, as mentiras e a perda de controle continuam, e este é justamente o momento de aproximar o tratamento.

O que a lei diz quando o jogo ameaça o patrimônio

Em regra, a dívida é de quem a contraiu. A família só responde se assinou como garantidora ou em situações específicas, como as despesas da casa entre cônjuges. Os detalhes estão em dívidas do dependente: a família é obrigada a pagar?.

Quando a pessoa está gastando tudo o que tem, o Código Civil oferece um instrumento pouco conhecido. O art. 4º, IV, considera os pródigos relativamente incapazes para certos atos, e o art. 1.767, V, os inclui entre as pessoas sujeitas a curatela. Pelo art. 1.782, essa interdição só impede o pródigo de, sem curador, “emprestar, transigir, dar quitação, alienar, hipotecar, demandar ou ser demandado” e praticar atos que não sejam de mera administração. É uma decisão judicial, que exige provas e advogado, e deve ser limitada ao necessário. Serve para proteger bens em casos graves, não para punir.

Quando é emergência

A OMS registra que o jogo pode levar a sofrimento mental grave e ao suicídio; um estudo sueco citado por ela encontrou risco de suicídio 15 vezes maior entre pessoas com transtorno do jogo. Frases como “não tenho saída”, “vou resolver isso do meu jeito” ou despedidas fora de hora devem ser levadas a sério.

Se houver risco imediato à vida, ligue 192 (SAMU) ou procure a emergência mais próxima. Para conversar com alguém agora, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça e em sigilo, também pelo site cvv.org.br. Em caso de ameaça ou agressão em casa, ligue 190.

Procure também ajuda profissional, sem esperar uma crise, se o jogo vem acompanhado de bebida ou drogas, de insônia e tristeza persistentes, de agressividade ou de perda do emprego.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a avaliação psiquiátrica é presencial, a enfermagem funciona 24 horas e cada pessoa tem um plano terapêutico individual, com a família junto e sigilo. Pergunte se o serviço atende o perfil do seu familiar. Conheça o nosso cuidado em saúde mental e o atendimento em Camaçari. Para cuidar de você, leia sobre codependência.

Em resumo

  • No jogo, a família costuma perceber antes de quem aposta; a OMS estima seis pessoas afetadas para cada apostador de alto risco.
  • Proteja a casa primeiro: contas separadas, nada assinado, lista das dívidas por escrito.
  • Converse sobre fatos e cuidado, não sobre caráter, e termine com um passo concreto.
  • A proibição das bets em 2026 ajuda, mas não trata a dependência; combine o destino do dinheiro devolvido.
  • Pensamentos de morte são emergência: 192 em risco imediato e CVV 188.

Perguntas frequentes

O saldo devolvido pelas bets pode ir para a conta da família?

Pela Medida Provisória nº 1.394/2026, a devolução é feita para conta de titularidade do próprio apostador, identificado pelo CPF. A família não pode desviar esse valor, mas pode combinar com ele, com calma e antes de o dinheiro cair, que ele vá para uma dívida, uma conta da casa ou o tratamento.

Devo quitar as dívidas de aposta para ele recomeçar do zero?

Quitar tudo de uma vez costuma aliviar a pressão que poderia levar ao tratamento e pode liberar crédito novo para apostar. Antes de pagar qualquer coisa, peça a lista completa das dívidas, procure orientação jurídica e condicione qualquer ajuda a um passo concreto de tratamento.

Vício em apostas tem tratamento?

Sim. A OMS descreve o transtorno do jogo ao lado dos transtornos por uso de substâncias e aponta a terapia cognitivo-comportamental e a entrevista motivacional como as abordagens com melhores resultados hoje. Grupos de ajuda mútua estão entre os recursos mais usados, embora tenham menos evidência de eficácia.

Dá para interditar quem gasta tudo em apostas?

O Código Civil prevê a curatela do pródigo, isto é, de quem dilapida o próprio patrimônio. Ela é decidida pela Justiça, depende de provas e só limita atos como emprestar, vender, hipotecar e dar quitação. É medida séria e excepcional, que não substitui o tratamento.

Bloquear sites e aplicativos no celular dele resolve?

Sozinho, raramente. Feito escondido ou à força, o bloqueio costuma ser contornado com outro aparelho, outra conta ou outro site, inclusive páginas clandestinas. Faz mais sentido quando é combinado com a pessoa, dentro de um plano que inclua controle do dinheiro e acompanhamento profissional.

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