Narcóticos Anônimos: como funciona e como achar uma reunião

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Narcóticos Anônimos (NA) é uma irmandade de ajuda mútua, gratuita e sem ligação com religião, governo ou polícia, para pessoas que querem parar de usar drogas. Os membros se reúnem em grupos para compartilhar experiências e seguir os 12 passos. O único requisito para participar é o desejo de parar de usar, e as reuniões podem ser achadas no site oficial do NA Brasil, presenciais ou on-line.

O que é Narcóticos Anônimos, em poucas palavras

O NA nasceu nos Estados Unidos, em 1953, a partir de pessoas em recuperação e de alguns membros de Alcoólicos Anônimos, segundo o próprio livreto de apresentação da irmandade. Hoje há grupos em muitos países, inclusive em todo o Brasil, como mostra a busca de reuniões do NA Brasil.

Alguns pontos ajudam a entender o espírito do grupo:

  • Não é clínica nem tratamento médico. Não há profissional de saúde conduzindo, receita ou internação. São pessoas com a mesma condição ajudando umas às outras.
  • Não cobra. Não há matrícula nem mensalidade; os grupos se mantêm com contribuições voluntárias dos próprios membros e recusam dinheiro de fora.
  • Não importa a droga. O NA propõe abstinência de todas as drogas e entende o álcool como uma delas.
  • Não exige fé. O programa fala em um “Poder Superior”, mas cada pessoa o entende do seu jeito, com ou sem religião.
  • O anonimato é a base. O que se ouve na reunião fica lá, e ninguém precisa dar sobrenome, endereço ou profissão.

Como funciona uma reunião de NA?

Cada grupo tem autonomia, então os detalhes mudam de um lugar para outro. Em geral, a reunião tem hora para começar e terminar, alguém coordena, são lidos trechos da literatura do NA e os participantes pedem a palavra para falar da própria experiência. Ninguém é obrigado a falar: muita gente passa as primeiras semanas só ouvindo.

Algumas expressões que a pessoa vai ouvir logo:

TermoO que quer dizer
AdictoComo os membros se referem a si mesmos; não é ofensa, é identificação
LimpoSem usar nenhuma droga, álcool incluído
Só por hojeA ideia de pensar na abstinência de 24 em 24 horas, sem prometer o “para sempre”
Padrinho ou madrinhaMembro com mais tempo de recuperação que acompanha o novato nos passos
PartilhaO momento em que alguém fala da própria vivência

O caminho do NA se apoia nos 12 passos, nas 12 tradições e nos 12 conceitos de serviço. Para entender o que cada passo propõe, veja os 12 passos explicados, e para saber o papel de quem acompanha o novato, leia o que faz um padrinho no AA e no NA.

Como achar uma reunião de narcóticos anônimos perto de você

Este é o passo que mais trava as famílias, então vale fazer junto:

  1. Entre no site oficial na.org.br e use a opção “Encontre uma reunião”. Há busca de reuniões presenciais e virtuais, e uma lista de grupos em PDF.
  2. Digite a cidade ou o bairro. Em Salvador, procure pelo bairro de casa e pelo do trabalho; na região metropolitana, tente Camaçari, Lauro de Freitas, Simões Filho e Dias d’Ávila; no interior, a cidade mais próxima.
  3. Anote dois ou três horários. Ter mais de uma opção evita que um imprevisto vire desculpa para não ir.
  4. Confira se a reunião é aberta a visitantes. Se o familiar quiser companhia na primeira vez, é bom saber antes se o grupo recebe acompanhantes ou se aquela reunião é só para quem tem problema com drogas.
  5. Planeje o trajeto. Ônibus, metrô, quem leva e quem busca. No Carnaval, no São João e nas festas de largo, horários e endereços podem mudar; confirme antes.
  6. Se não houver grupo perto, tente on-line. A reunião virtual não substitui o contato presencial para todo mundo, mas ajuda muito quem mora longe, trabalha em turnos ou ainda tem vergonha.

Para saber o que acontece nesse primeiro encontro, o texto sobre a primeira reunião do AA descreve um formato parecido.

O que a lei diz sobre grupos de ajuda mútua

Frequentar o NA é uma escolha livre. Nenhuma lei obriga uma pessoa adulta a ir a grupos de 12 passos, e o próprio NA afirma que não tem compromissos escritos nem promessas a ninguém.

Duas leis ajudam a situar o grupo dentro do cuidado:

  • A Lei nº 10.216/2001, no parágrafo único do art. 2º, garante à pessoa com transtorno mental, o que inclui a dependência, o direito de ser tratada preferencialmente em serviços comunitários. Grupos de ajuda mútua somam a esse cuidado na comunidade, junto com o CAPS e o tratamento.
  • A Lei de Drogas (Lei nº 11.343/2006), no art. 28, prevê para quem é flagrado com droga para consumo próprio medidas como a de comparecimento a programa ou curso educativo. Isso é decisão do juiz e não se confunde com o NA, que não é ligado à Justiça. Se houver processo, quem orienta é o advogado ou a Defensoria Pública.

E o anonimato tem peso também fora do grupo: o que a pessoa conta sobre a própria saúde é dado sensível e não deve ser exposto por ninguém, nem pela família.

Como a família pode apoiar sem tomar o lugar dele

A pergunta que mais chega para a nossa equipe é “posso obrigar a ir?”. Com adulto, não. O que costuma funcionar melhor:

  • Ofereça, não ordene. “Achei um grupo perto do seu trabalho às 19h. Quer que eu te leve na primeira?” abre mais portas que um ultimato.
  • Não cobre relatório. O que ele ouve e fala lá é dele. Perguntar “como foi?” basta; exigir detalhes quebra a confiança no grupo.
  • Não troque o tratamento pelo grupo. O NA é apoio, não avaliação médica. Quando há uso pesado, outra doença junto ou risco de abstinência grave, o grupo vem ao lado do tratamento.
  • Cuide de você também. Familiares têm o próprio espaço no Nar-Anon e em outros grupos de apoio para familiares.

Ir ao grupo e recair não é sinal de que o NA “não funciona” ou de que ele não quer. É sinal para conversar e rever o plano com a equipe que acompanha.

Quando o NA não basta e é hora de buscar tratamento?

Procure avaliação profissional, como um CAPS AD da sua cidade (veja a página do Ministério da Saúde sobre os CAPS) ou um serviço especializado, quando:

  • o uso continua ou piora mesmo com as reuniões;
  • a pessoa usa álcool ou calmantes em grande quantidade todo dia: parar de uma vez, sem médico, pode causar convulsão ou delirium e pede avaliação médica urgente;
  • aparecem confusão, agressividade, alucinações ou desconfiança fora do comum;
  • há dívidas, perda do emprego ou risco na rua crescendo rápido;
  • surgem falas de desesperança ou de não querer viver.
Se houver falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

O NA continua valendo durante e depois do tratamento. Entenda onde ele entra em cada etapa do tratamento da dependência química.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o plano terapêutico individual prepara a vida depois da alta, incluindo a ligação com grupos de ajuda mútua. Contamos com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e a família participando, sempre com sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Narcóticos Anônimos é um grupo gratuito de ajuda mútua para quem quer parar de usar qualquer droga, álcool incluído.
  • Não é clínica nem religião; o único requisito é o desejo de parar.
  • As reuniões, presenciais e on-line, estão na busca do site oficial do NA Brasil.
  • A família apoia oferecendo, sem obrigar nem cobrar detalhes, e cuida de si no Nar-Anon.
  • Quando o uso continua ou há risco, o NA anda junto com o tratamento, não no lugar dele.

Perguntas frequentes

Quem usa só maconha, só cocaína ou só remédio pode ir ao NA?

Pode. O NA não separa as pessoas pela substância: o único requisito para ser membro é o desejo de parar de usar. A literatura do grupo trata todas as drogas, inclusive o álcool, como parte do mesmo problema.

Qual a diferença entre Narcóticos Anônimos e Nar-Anon?

O NA reúne quem tem problema com drogas. O Nar-Anon é outra irmandade, independente, voltada para familiares e amigos dessas pessoas. Muitas famílias frequentam o Nar-Anon enquanto o familiar vai ao NA, cada um no seu espaço.

O grupo de NA dá comprovante de presença para a Justiça ou para o trabalho?

O NA não tem ligação com polícia, Justiça ou empresas, e cada grupo é autônomo, então não existe uma regra única. Se um juiz ou o trabalho pedir comprovação de acompanhamento, pergunte ao advogado ou à Defensoria qual documento serve; muitas vezes é a declaração de um serviço de saúde.

Dá para frequentar o NA durante ou logo depois de uma internação?

Sim, e é comum a equipe incentivar isso perto da alta. Durante a internação, depende das regras de cada serviço. Depois da alta, as reuniões ajudam a manter rotina e contato com pessoas que vivem a mesma luta.

Meu familiar foi a uma reunião e não quis voltar. E agora?

Acontece bastante. Vale sugerir outro grupo ou outro horário, porque cada reunião tem um jeito, ou uma reunião on-line. Se ele recusa qualquer ajuda e o uso continua, procure a equipe de saúde para pensar outros caminhos.

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