Quando pai e mãe não concordam sobre o tratamento do filho
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
Quando os pais discordam sobre o tratamento do filho dependente, o mais comum é um querer agir logo e o outro preferir esperar ou proteger. A saída não é um vencer o outro: é fechar juntos poucos combinados, com ajuda de um profissional, e cumpri-los os dois. Se o filho é menor, a lei dá a decisão aos dois pais; se é adulto, a decisão de se tratar é dele.
Por que pai e mãe enxergam o mesmo filho de jeitos tão diferentes?
Cada um chega a esse momento com uma história. Um viu um parente se perder no álcool e tem pressa. O outro cresceu ouvindo que “todo jovem passa por isso” e acha que pressionar vai afastar o filho. Um convive mais com ele e vê o pior de perto; o outro vê só o filho educado do domingo.
Há também o medo, que se disfarça de opinião. Quem diz “não vou internar meu filho” às vezes está dizendo “tenho medo de perder o amor dele”. Quem diz “acabou, vai para a clínica” às vezes está dizendo “não aguento mais”. Antes de discutir o plano, ajuda perguntar ao outro o que ele teme.
E muitas vezes a briga não é só sobre o filho. Mágoas antigas, uma separação mal resolvida ou a busca por um culpado entram na conversa sem pedir licença. Se essa parte pesa, leia sobre a culpa dos pais na dependência do filho.
Quais são as divergências mais comuns?
| Ponto da briga | O que um costuma dizer | O que o outro costuma dizer |
|---|---|---|
| Gravidade | “É dependência, precisa de tratamento” | “É fase, todo mundo experimentou” |
| Tipo de ajuda | “Internação, já” | “Terapia, CAPS, conversa primeiro” |
| Dinheiro | “Não dou mais nenhum centavo” | “Se eu não der, ele vai roubar” |
| Casa | “Ou se trata, ou sai daqui” | “Filho meu não vai para a rua” |
| Custo | “Vale qualquer sacrifício” | “Não temos como pagar” |
| Segredo | “A família precisa saber” | “Ninguém pode descobrir” |
Ver a briga escrita assim ajuda a perceber que, quase sempre, os dois querem a mesma coisa: o filho vivo e bem. Divergem sobre o caminho e o tempo. Para a dúvida do dinheiro, vale ler se dar dinheiro ao filho ajuda ou alimenta o uso; para a do custo, veja quanto custa uma clínica de reabilitação.
O que a lei diz quando pai e mãe não concordam?
Filho menor de 18 anos. O Código Civil diz, no art. 1.634, que o poder familiar cabe a ambos os pais, qualquer que seja a situação conjugal deles. O art. 1.632 completa: divórcio e fim da união estável não mudam a relação entre pais e filhos, só a questão de com quem o filho mora. Ou seja, o pai que não tem a guarda continua tendo voz no tratamento. E o parágrafo único do art. 1.631 prevê que, se os pais divergirem, qualquer um deles pode recorrer ao juiz para resolver o desacordo. É o último recurso, mas existe. Para os caminhos práticos com adolescentes, veja como internar um filho menor de idade.
Filho com 18 anos ou mais. Aqui o centro da decisão muda: quem decide se tratar é o próprio filho. Os pais não precisam estar de acordo para oferecer ajuda, e a concordância dos dois também não obriga o filho a nada. Quando há risco sério e ele recusa, a Lei nº 11.343/2006, art. 23-A, incluído pela Lei nº 13.840/2019, permite a internação involuntária a pedido de um familiar ou do responsável legal. A Lei nº 10.216/2001, no art. 6º, exige laudo médico para qualquer internação. Por isso, quem bate o martelo sobre a necessidade é o médico, não o pai nem a mãe. Entenda melhor em quando a internação involuntária é legal.
Na prática, a lei raramente é o que resolve a briga dos pais. Ela serve para mostrar que nenhum dos dois está sozinho nem impedido, e que a palavra técnica vem de quem avalia o filho.
Como chegar a um plano comum: roteiro para a conversa a dois
Escolham um momento sem o filho por perto, longe de uma crise e sem bebida na mesa. Se forem separados, pode ser por chamada de vídeo.
- Comecem pelo que concordam. Escrevam juntos uma frase do tipo “queremos que ele pare de usar e fique em segurança”. Ela vira o ponto de volta quando a conversa esquentar.
- Cada um fala do próprio medo, não do erro do outro. “Eu tenho medo de que ele morra” abre a conversa; “você sempre passou a mão na cabeça dele” fecha.
- Troquem opinião por avaliação. Em vez de decidir entre vocês se “é fase” ou “é dependência”, combinem levar o filho, ou pelo menos levar o caso, a uma avaliação profissional. Os dois aceitam ouvir o resultado.
- Fechem no máximo três combinados. Por exemplo: dinheiro só para despesas pagas direto; ninguém responde a pedido sem falar com o outro; se houver uso em casa, os dois tomam a mesma atitude.
- Definam quem fala com o filho e quando. Conversar juntos tem mais força; se não der, que o escolhido fale em nome dos dois.
- Marquem uma data para rever. Duas a quatro semanas depois, sentem de novo para ver o que funcionou, sem procurar culpado.
Se a conversa travar no item 2, é sinal de que vocês precisam de alguém de fora mediando. Isso não é fracasso: é exatamente para isso que existe o acompanhamento da família no tratamento.
E se um dos dois continua desfazendo o combinado?
É comum. O pai ou a mãe que cede escondido raramente faz isso por maldade: faz por culpa, por pena ou por medo do filho. Brigar na frente dele só confirma que há uma brecha.
O que costuma ajudar mais:
- Falar do fato, não da pessoa. “Ele recebeu dinheiro na quinta e voltou alterado” funciona melhor que “você destrói tudo o que eu faço”.
- Rever o combinado, se ele era impossível de cumprir. Às vezes a regra era dura demais para um dos dois.
- Cuidar de você, mesmo sem o outro. Grupos como o Nar-Anon e o Al-Anon recebem pais mesmo quando o outro não quer ir.
- Não desistir de ajudar o filho por falta de acordo. Você pode manter os seus próprios limites, como mostramos em como colocar limites no dependente químico.
O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) lembra que a dependência é uma doença tratável e que o tratamento costuma precisar de ajustes ao longo do tempo; ver o que o NIDA diz sobre tratamento e recuperação. O plano dos pais também pode ser ajustado sem que ninguém precise admitir que “perdeu”.
Quando procurar ajuda profissional sem esperar o acordo?
Nem toda decisão pode esperar os dois pais concordarem. Procure atendimento logo quando:
- o filho fala em não querer viver ou em se machucar;
- há sinais de intoxicação grave, confusão, desmaio ou convulsão;
- o uso de álcool ou de remédios calmantes é pesado e diário: parar de repente, sem médico, pode ser perigoso;
- há agressão em casa, contra os pais, irmãos ou avós;
- ele some por dias ou está se expondo a risco na rua.
Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.
Nessas situações, qualquer um dos pais pode e deve agir. A conversa sobre o plano de longo prazo fica para depois.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família participa do tratamento, e podemos conversar com pai e mãe juntos ou separados. O filho, se internado, recebe avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e plano terapêutico individual, com sigilo. Conheça o atendimento às famílias. Recebemos famílias de Lauro de Freitas, Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- Pais que discordam quase sempre querem o mesmo fim; divergem sobre o caminho e o tempo.
- Com filho menor, o poder familiar é dos dois, mesmo separados, e o juiz é o último recurso.
- Com filho adulto, a decisão de se tratar é dele; a internação involuntária depende de avaliação médica.
- Poucos combinados cumpridos pelos dois valem mais que muitas regras que um desfaz.
- Em emergência, qualquer um dos pais age na hora, sem esperar acordo.
Para entender o que acontece com quem cuida há muito tempo, leia sobre a codependência, quando a família adoece junto, e o guia para pais de filho dependente químico.
Perguntas frequentes
Um só dos pais pode pedir a internação involuntária do filho adulto?
A Lei de Drogas permite que a internação involuntária seja pedida por um familiar ou pelo responsável legal, sem exigir a assinatura dos dois pais. Mas quem decide se ela é necessária é o médico, depois de avaliar a pessoa. Mesmo que a lei não exija, um tratamento que um dos pais combate tende a enfrentar mais resistência, por isso vale tentar o acordo antes.
Somos separados. Quem decide o tratamento do nosso filho menor de idade?
Os dois. O Código Civil diz que o divórcio ou o fim da união não mudam o poder familiar, que continua com ambos os pais, seja qual for a guarda. Se não houver acordo de jeito nenhum, qualquer um deles pode pedir ao juiz que resolva a divergência.
Meu marido diz que é só uma fase. Devo esperar ele concordar para procurar ajuda?
Não precisa esperar para dar o primeiro passo. Você pode buscar uma avaliação, uma orientação ou um grupo de familiares por conta própria e levar o que ouviu de volta para a conversa. Informação de um profissional costuma pesar mais do que a opinião de um contra o outro.
Nosso filho pede ao pai o que eu nego, e vice-versa. Como evitar isso?
Combinem uma regra simples: nenhum dos dois dá resposta sobre dinheiro, saída ou tratamento sem falar antes com o outro. A frase “vou conversar com sua mãe (ou seu pai) e te respondo” tira o filho do papel de mediador. Manter isso com constância costuma diminuir as brigas em casa.
Faz sentido os pais fazerem terapia por causa da briga sobre o filho?
Faz, quando a discordância virou briga constante ou ameaça o casamento. Terapia de casal, terapia familiar ou um grupo como Nar-Anon e Al-Anon ajudam os pais a separar a mágoa entre eles da decisão sobre o filho. Isso não substitui o tratamento do filho, mas costuma ajudar a sustentá-lo.
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