Parente dá dinheiro escondido a quem usa droga: o que fazer
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centroAtualizado em 03/11/2026

A cena é comum e raramente é dita em voz alta: a mãe recusou o dinheiro pela terceira vez, o filho saiu bravo, e dois dias depois ela descobre que a avó entregou uma nota “só para ele comer”. A sensação é de traição, e a vontade é gritar com todo mundo.
Quando um parente dá dinheiro escondido a quem usa droga, o caminho que mais costuma funcionar é conversar com ele sem acusar, explicar o que o dinheiro faz em casa e fechar com toda a família um combinado curto, em que todos dão a mesma resposta. Dar sermão ao parente quase nunca resolve. Combinar o que cada um vai fazer, sim.
Por que um parente faz isso?
Quase ninguém dá dinheiro escondido por maldade. Os motivos mais comuns são outros:
- Pena. “Ele está magro, está sem nada, e eu não aguento ver.”
- Medo do que pode acontecer. “Se eu não der, ele pode se meter em problema ou passar fome.”
- Culpa. Quem se sente em dívida com o neto, o sobrinho ou o irmão tenta compensar.
- Chantagem emocional. “Vó, só você me entende, eles me odeiam.”
- Não saber. Alguns parentes de fato acreditam no “é só para o ônibus”.
Entender o motivo muda a conversa. Com quem age por pena, a conversa é de cuidado. Com quem age por culpa, é de outro papel para a pessoa. Com quem não sabe, é de informação.
Como descobrir sem montar uma investigação?
Os sinais costumam aparecer antes da confirmação: o pedido recusado em casa que “se resolve” no mesmo dia, o dinheiro que some sem explicação e a pessoa que fica alegre depois de visitar um parente específico. Ainda assim, suspeita não é prova, e acusar a pessoa errada machuca um vínculo que a família vai precisar.
Um caminho mais seguro é perguntar de modo aberto, sem armadilha:
Se a resposta for não e a suspeita continuar, não insista. O combinado de família, descrito mais abaixo, vale para todos, e ele resolve o problema sem precisar de culpado.
O que o dinheiro escondido faz com o combinado da casa?
O combinado da casa é a regra que a família construiu: “não damos dinheiro vivo; se precisar de passagem, a gente leva; a comida é aqui”. Cada exceção por fora ensina a quem usa uma lição simples: basta procurar a porta certa. Quem recebe de um lado passa a negociar com os outros, e a pessoa mais firme da família acaba sendo a vilã.
Este é um mecanismo de convivência, não uma conclusão sobre a pessoa que dá. O artigo sobre dar dinheiro a quem usa droga mostra as alternativas ao dinheiro vivo, e limites para quem tem dependência explica como sustentar uma regra quando ela é testada.
Quando a família responde de forma diferente, o resultado é conhecido de quem estuda o tema. Um estudo clássico com familiares de pessoas que bebiam, publicado no Journal of Consulting and Clinical Psychology, comparou três estratégias. A abordagem que treinou a família (CRAFT) levou mais pessoas ao tratamento do que as outras duas. Em linguagem simples: a família que age junto e com método ajuda mais do que a família que reage cada uma de um jeito.
Roteiro: o que dizer a cada tipo de parente
Estas frases são modelos para você adaptar à sua voz. Troque os nomes e mantenha o tom calmo.
À avó ou ao avô que dá por pena:
Ao tio ou irmão que dá por culpa ou para “não brigar”:
Ao parente que não acredita que seja dependência:
Ao parente que se recusa:
Em todos os casos, fale em particular, nunca na frente do dependente. E evite começar com “você errou”. Comece com “a gente” e termine com um pedido concreto e pequeno.
Combinado de família: um modelo de uma página
Quando houver mais de um adulto envolvido, escrever ajuda mais do que falar. Um papel curto, no grupo da família ou numa folha, evita que cada um lembre de uma versão. Modelo:
- O que não damos: dinheiro vivo, Pix e empréstimo, a ninguém da família, enquanto durar o combinado.
- O que damos: comida em casa, passagem paga direto no cartão ou levada de carro, ida a consultas e grupos.
- O que cada um diz quando ele pede: a mesma frase, curta. Exemplo: “Não vou dar dinheiro. Posso te levar ao CAPS agora, se quiser.”
- A quem avisamos: um responsável recebe o aviso quando houver pedido, sem julgamento.
- Quando revemos: data marcada, em 30 dias, para ajustar.
Deixe claro que é um experimento por tempo limitado, não uma sentença. Parentes aceitam mais um mês do que “para sempre”.
Se os pais da própria casa também discordam entre si, resolva primeiro essa parte, como mostra quando os pais não concordam sobre o tratamento do filho. Para avós que assumiram o cuidado do neto, vale ler avós que cuidam de neto com dependência.
E se, mesmo assim, o parente continuar dando?
Há parentes que não vão mudar, e isso não destrói o trabalho feito. O que continua ao seu alcance:
- O que está em sua casa: dinheiro, cartões, objetos de valor e senhas ficam com quem você decidir, como em controle do dinheiro na recuperação.
- O que você mesmo diz e dá: sua resposta continua a mesma, sem transferir a raiva ao parente.
- O vínculo com o parente: não rompa. Ele pode ser, mais adiante, a pessoa que leva o familiar ao tratamento.
- Sua saúde: guardar segredo, vigiar e brigar cansa. Procure um grupo de apoio para familiares ou um serviço público de saúde mental da sua cidade para cuidar de você também.
Também vale observar o outro lado: quando o dinheiro vira o único assunto, a pessoa que usa pode estar pedindo, de forma torta, atenção. Dizer “não” ao dinheiro e “sim” a uma refeição juntos mostra que o vínculo continua.
Quando o pedido de dinheiro vem junto de ameaça
Se o pedido vier com ameaça de se machucar, agressão ou ameaça a alguém da casa, deixe o assunto do dinheiro de lado: a prioridade é a segurança.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família participa do plano terapêutico individual e é orientada sobre como conversar em casa, com sigilo. Veja o tratamento para dependência química e a página de Camaçari. Se quiser falar com a equipe, mande uma mensagem.
Em resumo
- Parente que dá dinheiro escondido quase sempre age por pena, medo ou culpa, e não por maldade.
- Converse em particular, sem acusar, e termine com um pedido pequeno e concreto.
- Um combinado de uma página, com a mesma frase para todos, funciona melhor que cobrança individual.
- Cada adulto decide sobre o próprio dinheiro; você decide sobre a sua casa e a sua resposta.
- Mantenha o vínculo com o parente: ele pode ajudar mais adiante.
- Se houver ameaça, agressão ou risco à vida, a segurança vem antes: 190, 192 ou CVV 188.
Veja o conjunto de textos em Família e codependência.
A internação pode ser uma possibilidade?
Sim. A internação pode fazer parte do tratamento da dependência química, do alcoolismo ou de quadros de saúde mental quando os cuidados fora do hospital são insuficientes. A indicação depende de avaliação médica individual — não é necessária para todas as pessoas e não deve ser decidida apenas pela leitura de um artigo.
No Centro Terapêutico Amor em Cristo Bahia, você pode conversar com a equipe sobre essa possibilidade e os próximos passos. Antes de qualquer decisão, confirme se o serviço atende à idade, ao perfil e às necessidades da pessoa, além das condições de atendimento. O contato pelo WhatsApp não garante vaga nem substitui a avaliação médica.
Conforme o art. 4º da Lei 10.216/2001. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
Meu parente dá dinheiro porque tem pena. Isso é crime?
Dar dinheiro a um adulto da família, por pena, não é crime por si só. O problema aqui não é jurídico, é de proteção: o dinheiro que chega por fora desfaz o combinado da casa. Se houver dúvida sobre um caso específico, vale conversar com um advogado.
E se a avó for idosa e eu não quiser magoá-la?
Comece pelo carinho dela, não pelo erro. Diga que ela quer o bem do neto, e que o que o ajuda hoje é a mesma resposta de todos. Ofereça um papel a ela que não passe por dinheiro: companhia, comida, ida a consultas.
Posso pedir que o parente me avise sempre que o dependente pedir dinheiro?
Pode, como pedido, não como vigilância. Um aviso simples, como “ele te pediu algo hoje?”, ajuda a casa inteira a ver o padrão. Evite criar uma rede de espionagem: o objetivo é a família falar a mesma coisa.
O parente se recusa a parar de dar. Quem decide?
Cada adulto decide sobre o próprio dinheiro, e ninguém pode obrigá-lo. O que você controla é o que está em sua casa e o que você mesmo dá. Mantenha a porta aberta ao parente e continue convidando para o combinado.
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