Internação voluntária: a pessoa pode pedir para sair?
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Pode. Quem se internou por vontade própria tem o direito de pedir para sair. A Lei 10.216/2001 (art. 7º, parágrafo único) diz que a internação voluntária termina por pedido escrito do paciente ou por determinação do médico assistente. A clínica não pode manter trancado quem pediu a saída; o que ela deve fazer é ouvir, orientar e organizar a alta.
O que a lei diz sobre sair da internação voluntária?
Duas leis tratam do assunto, e elas dizem a mesma coisa:
- Lei 10.216/2001, art. 7º: quem pede ou aceita a internação assina, na entrada, uma declaração de que escolheu esse regime. O parágrafo único completa que o término acontece por solicitação escrita do paciente ou por determinação do médico assistente.
- Lei 11.343/2006, art. 23-A, § 4º, incluído pela Lei 13.840/2019 e voltado à dependência de drogas: a internação voluntária começa com declaração escrita da pessoa e termina por determinação do médico responsável ou por solicitação escrita de quem deseja interromper o tratamento.
Ou seja, a porta de entrada e a de saída são do mesmo tipo: um papel assinado pela própria pessoa. A Lei 10.216/2001 também garante, no art. 2º, parágrafo único, que o paciente seja tratado com humanidade e respeito e protegido contra qualquer forma de abuso.
Para comparar com os outros tipos, veja as diferenças entre internação voluntária, involuntária e compulsória.
O que a clínica pode e não pode fazer quando ele pede para sair?
| A clínica pode | A clínica não pode |
|---|---|
| Conversar com o paciente sobre o motivo do pedido | Ignorar o pedido escrito |
| Pedir que o médico avalie antes da saída | Trancar a pessoa ou esconder os documentos dela |
| Explicar os riscos de interromper e orientar o que fazer depois | Usar ameaça, castigo ou isolamento para fazê-lo desistir |
| Avisar a família, conforme o combinado na entrada | Transformar a internação em involuntária só porque ele quer sair |
Manter alguém preso contra a própria vontade pode configurar cárcere privado, crime previsto no art. 148 do Código Penal, mesmo que a intenção seja ajudar. Se a sua família viver essa situação em algum lugar, veja como denunciar uma clínica irregular.
Como pedir alta da internação voluntária, passo a passo
- Escreva o pedido. Basta uma folha com o nome completo, a data, a frase “quero encerrar a minha internação voluntária” e a assinatura.
- Entregue à equipe e guarde uma cópia ou uma foto do papel.
- Peça para falar com o médico antes de sair. Ele avalia como a pessoa está e pode indicar cuidados para os primeiros dias.
- Combine a saída: quem vem buscar, para onde a pessoa vai, a devolução dos pertences e dos documentos.
- Peça orientação por escrito sobre o que fazer depois: remédios receitados, consultas, grupo de apoio, CAPS AD.
Antes de sair, vale perguntar ao médico quais cuidados são necessários nos primeiros dias e onde continuar o acompanhamento, por exemplo no CAPS AD.
O que a família pode fazer nessa hora?
O pedido para sair costuma aparecer quando bate a saudade, a fissura ou a sensação de que “já está bem”. A família não tem o poder de barrar a saída, mas tem muita influência:
- Escute antes de responder. Pergunte o que está difícil, sem acusar.
- Converse com a equipe para entender como ele está e se há algo a ajustar no plano.
- Não prometa o que não vai cumprir, como dinheiro, carro ou volta para casa sem regras.
- Se ele decidir sair, mantenha o vínculo. Combine o que vale em casa e deixe claro que a porta do tratamento continua aberta.
Para preparar essa conversa, leia o que falar na visita da internação.
Quando é emergência?
Se a pessoa fala em tirar a própria vida, está muito confusa, agressiva ou com convulsão, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Para conversar com alguém agora, o CVV atende pelo 188, 24 horas e de graça.
Nessas situações, o médico pode avaliar se existe indicação de internação involuntária. Ela não é automática: exige pedido de familiar ou responsável legal e decisão formal de médico (Lei 11.343/2006, art. 23-A, § 5º), e a Lei 10.216/2001 (art. 8º, § 1º) manda comunicá-la ao Ministério Público em até 72 horas. Entenda melhor quando a internação involuntária é legal.
Quando é o filho internado que liga pedindo para sair
Muitas vezes o pedido não chega à equipe primeiro: chega por telefone, para a mãe ou para o pai. Dois artigos tratam desse lado da família:
- Ele ligou chorando, pedindo para sair. A resposta curta: acolher a dor, não prometer a saída e levar o pedido à equipe. Veja filho internado pede para sair.
- A família pensa em tirar antes do tempo. Se foi a família que internou, ela pode pedir a saída por escrito. O que pesa é o contrato e o risco. Leia tirar meu filho da clínica antes do tempo.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o Diretor Jurídico orienta as famílias sobre direitos e documentos. A internação tem enfermagem 24 horas, avaliação psiquiátrica presencial, plano terapêutico individual e a família participando, com sigilo. Veja também os direitos do paciente internado e da família e o auxílio-doença durante o tratamento.
Em resumo
- Na internação voluntária, a pessoa pode pedir para sair a qualquer momento, por escrito.
- Ela também termina quando o médico decide pela alta.
- A clínica pode orientar e pedir avaliação médica, mas não pode segurar ninguém à força.
- A família não precisa autorizar a saída, mas pode ajudar muito com escuta e combinados claros.
- Risco à vida é emergência: 192 (SAMU) e CVV 188.
Perguntas frequentes
O pedido de saída pode ser digitado ou precisa ser escrito à mão?
A lei exige que o pedido seja escrito, mas não diz de que forma. Um papel à mão ou um texto digitado servem, desde que tenham o nome, a data, a frase de que a pessoa quer encerrar a internação e a assinatura dela. Vale guardar uma cópia ou uma foto.
A família precisa autorizar a saída de quem se internou por vontade própria?
Não. Na internação voluntária, quem decide encerrar é o próprio paciente adulto, por escrito, ou o médico. A família pode e deve conversar com a equipe, mas a lei não condiciona a saída à concordância dos parentes.
Quem pediu alta pode voltar para a internação depois?
Pode. Uma nova internação voluntária começa com uma nova declaração escrita de que a pessoa escolheu esse tratamento, como manda a lei. Sair não fecha a porta, e muita gente volta quando se sente pronta.
O médico pode dar alta antes de o paciente querer sair?
Pode. A lei prevê que a internação voluntária termina também por determinação do médico, por exemplo quando ele avalia que a pessoa já pode seguir o tratamento fora da internação. Nesse caso, a equipe deve orientar a continuidade do cuidado.
A internação voluntária pode virar involuntária quando a pessoa pede para sair?
Não de forma automática. A clínica não pode simplesmente segurar quem pediu para sair. Se houver risco grave, a internação involuntária só é possível com pedido de familiar ou responsável legal e decisão formal de médico, seguindo as regras e as comunicações que a lei exige.
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