Pressão dos amigos: como ajudar o adolescente a dizer não às drogas

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

A pressão dos amigos está entre os motivos que levam o adolescente a experimentar álcool e drogas, porque nessa fase o cérebro dá peso extra à aprovação da turma. A boa notícia é que dá para preparar o filho: frases prontas para recusar, uma senha combinada para ser buscado e uma relação em casa em que ele possa contar o que viveu sem medo.

Muitos pais só pensam nisso quando aparece um amigo novo que preocupa ou quando o filho volta de uma festa diferente. Não precisa esperar o problema para agir.

Por que os amigos pesam tanto na adolescência?

Na adolescência, ser aceito pelo grupo deixa de ser um detalhe e passa a ser quase uma necessidade. Não é fraqueza de caráter do seu filho: é uma fase do desenvolvimento.

Um estudo publicado na revista Developmental Science observou adolescentes, jovens adultos e adultos num jogo de direção simulada, ora sozinhos, ora sabendo que amigos estavam assistindo. Só os adolescentes passaram a correr mais riscos quando eram observados pelos colegas. Os exames de imagem mostraram mais atividade nas áreas do cérebro ligadas à recompensa. Em linguagem simples: diante da turma, o “prêmio” de arriscar parece maior.

O Instituto Nacional sobre Abuso de Álcool e Alcoolismo dos EUA (NIAAA) também coloca a pressão do grupo ao lado do desejo de independência, do estresse e do acesso fácil entre os motivos para o adolescente beber.

Como a pressão aparece no dia a dia?

Nem sempre a pressão é alguém insistindo com o copo na mão. Muitas vezes ela é silenciosa, e o adolescente nem percebe que está cedendo.

Tipo de pressãoComo costuma aparecerExemplo
DiretaOferta e insistência“Só um gole, deixa de ser chato.”
Pelo debocheApelido, risada, exclusãoSer chamado de “criança” ou “careta” por recusar
Pelo ambienteTodo mundo em volta está usandoO paredão na rua, a festa em casa sem adultos, o Carnaval com a turma
Pelo pertencimentoMedo de ficar de fora do grupoNão ser chamado para o próximo rolê
Pelas redesFotos, vídeos e desafios que fazem o uso parecer normalGrupo da turma com vídeos de bebedeira

Na Bahia, festas de largo, São João no interior e o Carnaval são momentos em que a bebida circula fácil e a turma fica mais solta. Vale conversar antes dessas datas, e não só depois.

Que frases prontas ajudam seu filho a dizer não?

Uma dúvida que chega muito à nossa equipe é: “Mas como ele vai recusar sem passar vergonha?”. O segredo é que ele tenha respostas curtas já ensaiadas. Na hora da pressão, ninguém tem tempo de criar uma frase boa. Sugira algumas e deixe que ele escolha as que combinam com o jeito dele:

  • O não simples: “Não, valeu.” E mudar de assunto. Não precisa explicar.
  • A desculpa que os pais assumem: “Minha mãe me pega e percebe na hora, não vou arriscar.” Deixe claro para ele que pode usar você como “a chata da história”.
  • O compromisso: “Tenho jogo amanhã cedo” ou “tenho prova”.
  • O humor: “Já sou esquisito sóbrio, imagina assim.”
  • A troca: pegar um refrigerante ou uma água e ficar com o copo na mão, o que costuma reduzir as ofertas.
  • A saída: “Vou ali e já volto.” Sair de perto também é recusar.

Treinar isso em casa, numa conversa leve, faz diferença. Os padrões internacionais de prevenção do UNODC e da OMS incluem o treino de habilidades pessoais e sociais, como lidar com a pressão e tomar decisões, entre as estratégias de prevenção com respaldo em pesquisa. Para ir além das frases, veja como conversar com o filho sobre drogas.

O que fazer em casa, passo a passo

  1. Conheça os amigos e as famílias deles. Abra a casa para a turma, ofereça carona, guarde os telefones dos pais. Conhecer não é vigiar.
  2. Combine uma senha de resgate. Uma palavra ou um emoji que, enviado por mensagem, quer dizer “me tira daqui”. Você liga dizendo que aconteceu algo em casa e vai buscar, sem sermão no caminho e sem expor o filho na frente dos amigos.
  3. Prometa que a carona vem antes da bronca. Se ele estiver num lugar perigoso ou se alguém tiver passado mal, o mais importante é ele ligar. A conversa sobre o que deu errado fica para o dia seguinte, com calma.
  4. Faça perguntas abertas. “O que a galera faz nas festas?” rende mais do que “você está usando droga?”. Escute sem interromper.
  5. Converse sobre os amigos sem atacá-los. Criticar o amigo costuma fazer o adolescente defendê-lo. Fale do que você observa: “Percebi que depois que você começou a sair com eles, chega mais tarde e mais fechado.”
  6. Ajude a ter outros grupos. Esporte, música, curso, igreja e voluntariado no bairro dão ao adolescente um lugar para pertencer que não gira em torno do uso.
  7. Dê o exemplo. O jeito como os adultos da casa bebem e falam de bebida ensina mais do que qualquer palestra.

As diretrizes do UNODC e da OMS apontam que famílias que unem afeto, regras claras e acompanhamento da rotina dos filhos protegem mais do que as que só vigiam ou só liberam. Para as festas e viagens com a turma, veja também o que combinar nas férias escolares.

O que a lei diz quando um adulto oferece bebida ou droga?

O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe vender bebida alcoólica e produtos que possam causar dependência a menores de 18 anos (art. 81). O art. 243 vai além: é crime vender, fornecer, servir ou entregar, mesmo de graça, bebida alcoólica ou outros produtos que causem dependência a criança ou adolescente.

Na prática, isso vale também para o adulto que “libera” a bebida numa festa da turma ou para o amigo mais velho que compra para os menores. Se a situação se repetir, a família pode conversar com a escola, procurar o Conselho Tutelar ou registrar a ocorrência. Se o filho for abordado por alguém que vende droga, especialmente pelas redes sociais, leia sobre o aliciamento de adolescentes pelas redes.

Quando a preocupação passa da conta?

Experimentar por pressão uma vez é diferente de um padrão de uso. Procure orientação de um profissional de saúde, que pode ser a unidade básica, o CAPS da sua cidade ou um psicólogo, quando notar:

  • uso que se repete ou aumenta, ou mais de uma substância;
  • notas caindo, faltas na escola e abandono de atividades de que ele gostava;
  • troca completa de amigos, segredos sobre onde vai e com quem anda;
  • dinheiro ou objetos sumindo de casa;
  • mudanças fortes de humor, isolamento, tristeza persistente.

Se o adolescente já está bebendo com frequência, o passo a passo de filho adolescente bebendo: o que fazer ajuda a organizar a conversa. E, se a família estiver exausta e girando toda em torno do problema, vale entender a codependência, quando a família adoece junto.

Se ele estiver muito sonolento, sem conseguir acordar, com respiração lenta ou vomitando sem parar depois de beber ou usar algo, não o deixe dormir sozinho: procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Se surgirem falas sobre não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a equipe conversa todos os dias com famílias preocupadas e ajuda a pensar os próximos passos, com sigilo. Para tratamento, pergunte se o serviço atende o perfil do seu familiar. Conheça como trabalhamos com as famílias. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Na adolescência, a aprovação da turma pesa mais, e isso aparece até no funcionamento do cérebro.
  • A pressão pode ser direta, pelo deboche, pelo ambiente ou pelas redes.
  • Frases curtas ensaiadas e uma senha de resgate dão ao filho uma saída na hora difícil.
  • Conhecer os amigos, oferecer outros grupos e dar o exemplo protegem mais do que proibir.
  • Dar bebida ou droga a menor de 18 anos é crime pelo ECA, mesmo de graça.

Perguntas frequentes

Devo proibir meu filho de andar com um amigo que usa drogas?

Proibir de uma vez costuma empurrar a amizade para o escondido. Funciona melhor dizer com clareza o que preocupa, combinar onde e como eles se encontram e abrir espaço para outros grupos. Se houver risco concreto, como uso junto ou envolvimento com venda, aí o limite precisa ser firme.

Meu filho é tímido e tem poucos amigos. Ele corre menos risco?

Não necessariamente. O adolescente que se sente sozinho pode aceitar mais coisas para ser aceito por um grupo. Ajudar a construir amizades em espaços saudáveis, como esporte, música ou grupo da igreja, também é prevenção.

Treinar frases para dizer não funciona mesmo?

Ajuda, porque na hora da pressão o adolescente tem pouco tempo para pensar e tende a repetir o que já ensaiou. As diretrizes internacionais de prevenção incluem o treino de habilidades sociais, como recusar e resolver conflitos, entre as estratégias com respaldo em pesquisa.

Ele aceitou uma vez para não ficar de fora. Isso quer dizer que vai virar dependente?

Um episódio não significa dependência. Ele merece uma conversa calma sobre o que aconteceu e sobre como recusar da próxima vez. Se o uso se repetir, aumentar ou vier com mudanças fortes de comportamento, vale buscar avaliação.

Com que idade começa a pressão dos amigos para beber ou usar?

Não há uma idade certa, mas ela costuma crescer na passagem para o ensino fundamental II e o ensino médio, quando a turma ganha mais peso e surgem as primeiras festas sem adultos. Por isso vale começar a conversa antes desse momento.

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