Saída terapêutica: como funcionam os dias em casa durante o acolhimento

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

A saída terapêutica é a ida combinada para casa, por algumas horas ou dias, no meio do acolhimento, para a pessoa praticar a vida fora do tratamento. Não é folga nem prêmio: é uma etapa do plano, com objetivo, data de volta e regras acertadas antes entre o acolhido, a família e a equipe. O que acontece nesses dias vira material de trabalho na volta.

É comum a família sentir uma mistura de alegria e medo quando a primeira saída se aproxima: “e se ele usar?”, “e se não quiser voltar?”, “o que eu faço com ele em casa?”. Essas perguntas são o começo da preparação.

O que é a saída terapêutica e para que ela serve?

Durante o acolhimento, a pessoa vive num ambiente protegido: rotina, grupos, gente por perto, sem bebida e sem droga ao alcance. Isso ajuda muito no começo, mas a vida de verdade acontece lá fora. A saída terapêutica funciona como um treino curto nesse mundo real, com rede de segurança.

Cada serviço dá um nome diferente: saída terapêutica, ressocialização, licença, visita ao lar. O sentido é o mesmo. A pessoa vai para casa e reencontra, aos poucos, a família, o bairro, o dinheiro, o celular e os lugares que lembram o uso. Depois volta e conta à equipe o que sentiu e onde balançou.

Ela serve para três coisas:

  • Testar o que foi aprendido, como recusar um convite ou atravessar uma briga sem usar.
  • Descobrir gatilhos que ainda não apareceram, porque muitos só surgem em casa. Veja como mapear os gatilhos de recaída.
  • Reaproximar a família com tempo, antes da alta, e não tudo de uma vez no último dia.

O que as regras dizem sobre os dias em casa?

Não existe lei federal que use o nome “saída terapêutica” nem que marque uma data para ela. Mas as regras das comunidades terapêuticas dão o quadro em que essa etapa precisa caber.

A Lei de Drogas, no art. 26-A, define o acolhimento como de adesão e permanência voluntárias, por escrito, e como etapa transitória para a reinserção social e econômica. O mesmo artigo proíbe o isolamento físico da pessoa. Ou seja: o acolhimento é feito para terminar com a pessoa de volta à vida, e preparar essa volta faz parte dele.

A Resolução CONAD nº 1/2015, que regula as comunidades terapêuticas, traz pontos que tocam diretamente nas saídas:

O que a resolução prevêOnde está
A entidade informa com clareza os critérios de admissão, permanência e saída, que o acolhido aceita por escritoArt. 6º, IV
A família ou pessoa indicada pelo acolhido participa do acolhimento e da preparação para a reinserção socialArt. 6º, V
O vínculo familiar é incentivado desde o início, com o consentimento do acolhidoArt. 6º, IX
O acolhido pode interromper o acolhimento a qualquer momentoArt. 8º, I
O plano de atendimento registra a evolução do vínculo familiar e o planejamento da saídaArt. 11, § 1º, II e XI
Os critérios de saída e o plano também recebem a anuência do familiar, quando houverArt. 11, § 3º

Na prática, a saída terapêutica costuma estar escrita no programa da entidade e no plano de cada pessoa. Se você ainda não viu esse plano, entenda o que ele deve conter em plano individual de atendimento (PIA). Para o conjunto das regras, veja o que a resolução do CONAD exige das comunidades terapêuticas.

Uma diferença importante: a mesma Lei de Drogas, no art. 23-A, § 9º, proíbe qualquer internação em comunidade terapêutica. Quem está internado em clínica ou hospital, sobretudo de forma involuntária, segue as regras da Lei 10.216/2001 e da Lei de Drogas, e as saídas dependem de avaliação médica. Veja as diferenças em internação voluntária, involuntária e compulsória.

Quando costuma acontecer a primeira saída?

Não há prazo fixo em lei. Cada programa define o seu, e o momento de cada pessoa depende de como ela está. Em vez de perguntar “quantos dias faltam”, vale perguntar à equipe quais critérios estão sendo olhados. Os mais comuns são:

  • a pessoa está estável, dormindo e se alimentando bem, sem crises recentes;
  • participa das atividades e consegue falar da própria vontade de usar;
  • tem um objetivo claro para a saída, como resolver um documento, rever os filhos ou testar a rotina da casa;
  • a família foi ouvida e se sente em condições de receber;
  • existe um plano escrito para o caso de algo dar errado.

Se ele está insistindo para sair antes da hora, lembre que pedir saída é diferente de ter uma saída terapêutica. Na visita, ajuda saber o que falar quando ele pede para ir embora.

Como preparar a casa antes da saída?

Este roteiro pode ser feito numa conversa com a equipe e depois em família. Vale anotar as respostas.

  1. Combine datas e horários exatos: dia e hora de saída, dia e hora de volta, quem busca e quem leva. Defina também o caminho: se ele passa perto de antigos pontos de uso, escolha outro, mesmo que seja mais longo.
  2. Defina o objetivo dos dias em casa. Uma ou duas coisas concretas bastam. Agenda cheia demais cansa; agenda vazia abre espaço para o tédio.
  3. Tire a bebida e os remédios controlados do alcance, e combine com quem mora na casa que ninguém vai beber ou usar ali nesses dias.
  4. Acerte o dinheiro. Quanto ele leva, para quê, e quem guarda o cartão. Sem humilhação, como um acordo.
  5. Converse sobre o celular e os contatos antigos, sobretudo de quem fornecia ou usava junto.
  6. Escolha datas tranquilas. Saída em semana de festa de largo, São João ou Carnaval aumenta muito a exposição; se coincidir, fale com a equipe antes.
  7. Tenha um plano para a vontade de usar: com quem ele fala, para onde vai, quem a família chama. Inclua o contato da equipe.
  8. Combine o que fazer se houver uso ou se ele não quiser voltar, antes de sair, quando todos estão calmos.

O que fazer durante e na volta?

Durante os dias em casa, trate a pessoa como alguém que está se cuidando, não como suspeita. Vigiar cada passo costuma gerar briga, e briga é gatilho. Observe com carinho: sono, irritação, sumiços, conversas no celular, pressa para sair sozinho.

Na volta, o momento mais importante é a conversa com a equipe. Conte o que você viu, inclusive o que deu certo. A família também tem direito de dizer o que foi difícil para ela. Essas informações ajudam a ajustar o plano e a decidir se a próxima saída pode ser mais longa, igual ou se é melhor esperar.

Se ele bebeu ou usou na saída, não esconda da equipe. O NIDA explica que a recaída indica a necessidade de retomar ou ajustar o tratamento, e não que ele falhou. O mesmo instituto alerta que, depois de um tempo sem uso, a tolerância cai, e voltar à quantidade de antes pode levar a uma overdose. Os próximos passos estão em recaída: o que fazer.

E se ele não quiser voltar?

Na comunidade terapêutica, o acolhimento é voluntário e a pessoa tem o direito de interromper quando quiser. A família não pode obrigá-la a voltar à força. O que dá para fazer é conversar sem ameaças, lembrar o que ela mesma disse que queria e pedir que ela converse com a equipe antes de decidir.

Se ela não voltar, mantenha o vínculo e as portas abertas. Muitas pessoas retomam o tratamento depois. Veja como reabrir a conversa em como convencer um dependente a se tratar.

Quando é emergência?

Procure atendimento imediato se, durante a saída, a pessoa:

  • mostrar sinais de intoxicação forte, como sonolência difícil de acordar, respiração lenta, confusão ou convulsão;
  • ficar agressiva a ponto de pôr alguém em risco;
  • falar em não querer viver.
Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Para falas de desesperança, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, cada pessoa tem um plano terapêutico individual, com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e a família participando, sempre com sigilo. Se a volta para casa preocupa você, conheça o tratamento para dependência química e as etapas do tratamento. Recebemos famílias de Camaçari e de toda a Bahia.

Em resumo

  • A saída terapêutica é uma etapa combinada do plano, com objetivo e data de volta, não um prêmio.
  • Nenhuma lei fixa quando ela acontece; os critérios de saída devem estar claros e aceitos por escrito.
  • Preparar datas, dinheiro, casa sem bebida e um plano para a vontade de usar faz diferença.
  • Uso durante a saída deve ser contado à equipe: é informação para ajustar o tratamento.
  • Na comunidade terapêutica a permanência é voluntária; a família não pode forçar a volta.

Perguntas frequentes

A saída terapêutica é um direito do acolhido?

Não existe uma regra nacional que garanta dias em casa em uma data certa. A saída terapêutica é uma etapa que cada programa define nas suas normas e que entra no plano de atendimento de cada pessoa. O que as regras garantem é que os critérios de permanência e saída sejam explicados com clareza e aceitos por escrito.

A família pode dizer que não quer receber o familiar em casa na saída?

Pode, e vale dizer isso à equipe com sinceridade, sem culpa. Se a casa não está em condições, por brigas recentes, por alguém que bebe ou usa no mesmo endereço ou por medo, a equipe pode adiar, mudar o local ou trabalhar antes os pontos difíceis com a família.

Ele pode passar a saída na casa de outro parente ou da namorada?

Depende do que for combinado com a equipe. O importante é que o local tenha um adulto de referência, que esteja longe dos antigos pontos de uso e que todos saibam as regras do combinado. Mudar de endereço de última hora, sem avisar ninguém, é sinal para conversar.

Se ele beber ou usar droga na saída, perde a vaga?

Cada programa tem suas regras para isso, e elas devem ser explicadas antes. Em geral, o mais útil é contar à equipe o que aconteceu, sem esconder, para que o plano seja revisto. Um deslize na saída é informação para o tratamento, não prova de que tudo foi perdido.

Quem está internado contra a vontade pode ter saída terapêutica?

A internação involuntária acontece em unidade de saúde, nunca em comunidade terapêutica, e é conduzida pelo médico. Nesses casos, qualquer saída temporária depende de avaliação médica e da situação clínica do paciente. Vale perguntar diretamente à equipe como isso funciona naquele serviço.

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