Dia das Mães sendo mãe de dependente químico: cuidar de si na data
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
No Dia das Mães, a mãe de dependente químico costuma viver uma mistura de amor, saudade, culpa e medo. Não existe jeito certo de passar a data. O que ajuda é decidir antes como será o domingo, combinar limites claros com o filho e reservar um cuidado real para si mesma, sem esperar que ele mude justamente nesse dia.
Se este segundo domingo de maio está pesando, você não precisa atravessá-lo sozinha.
Por que o Dia das Mães dói tanto quando o filho usa drogas?
A data foi feita para celebrar o vínculo, e é exatamente esse vínculo que a dependência machuca. A propaganda mostra filhos sorrindo à mesa; a mãe de quem usa álcool ou drogas, muitas vezes, está contando as horas para saber se ele vai aparecer, em que estado e se vai pedir dinheiro.
Há também o peso de comparar. A vizinha posta a foto com os filhos; a irmã pergunta “e o seu menino, vem?”. Cada pergunta inocente vira um lembrete do que está faltando.
Uma pesquisa com familiares de pessoas com dependência, publicada na Revista Mineira de Enfermagem da UFMG, mostrou como a vida de quem cuida vai se organizando em volta do uso do outro, até as próprias necessidades sumirem. Em datas afetivas, esse esquecimento de si fica ainda mais visível.
O que costuma passar pela cabeça da mãe nessa data
Nenhum desses sentimentos faz de você uma mãe pior. Eles são respostas comuns a uma situação muito difícil:
- Culpa: “onde foi que eu errei?”. A dependência tem várias causas, e nenhuma mãe sozinha produz uma doença. Falamos disso em a culpa dos pais na dependência química.
- Esperança de milagre: a ideia de que, por ser Dia das Mães, ele vai cair em si e prometer parar.
- Raiva: de ter sido esquecida, enganada ou deixada em segundo plano por anos.
- Vergonha: de explicar a ausência dele aos parentes.
- Saudade: de quem o filho era antes do uso, ou de um filho que está internado ou longe.
Dar nome ao que sente ajuda a não decidir no impulso. Uma mãe que entende a própria raiva briga menos; uma mãe que entende a própria esperança se decepciona menos.
Como planejar o domingo: um roteiro em 6 passos
Este é um roteiro que montamos a partir das dúvidas que mais chegam à nossa equipe. Faça na semana anterior, de preferência com alguém de confiança.
- Escolha o formato do dia, não deixe o dia escolher você. Almoço grande, café só com quem é próximo, missa ou culto pela manhã, um passeio na orla. Formatos curtos costumam ser mais fáceis de proteger.
- Decida se o filho vem e em que condições. Por exemplo: “Quero muito você no almoço, de meio-dia às três. Hoje a casa não vai ter bebida. Se você chegar alterado, a gente se vê outro dia.”
- Combine com o resto da família. Peça que não cobrem o filho na mesa, não ofereçam bebida a ele e não comentem o assunto com todos ouvindo. Uma casa sem bebida nesse dia já tira muita pressão da mesa.
- Prepare uma resposta curta para os parentes. Algo como: “Ele está passando por um momento difícil, e a gente está cuidando disso. Hoje eu quero só aproveitar vocês.” Ninguém precisa saber mais do que isso.
- Decida antes o que fazer com pedidos de dinheiro. Datas afetivas são ocasiões frequentes de pedido, às vezes “para comprar o seu presente”. Uma resposta pronta evita ceder por culpa.
- Reserve um momento só seu. Uma hora de descanso, uma ligação para uma amiga, uma caminhada. Marque no calendário como se fosse compromisso, porque é.
Se o filho estiver internado, a lógica muda: pergunte à equipe, com antecedência, as regras de visita e de contato daquela semana. Quando a visita não for possível, uma carta para o familiar internado é uma forma de estar presente.
E se ele não aparecer, aparecer alterado ou fizer uma promessa?
Se ele não vier: evite passar o dia esperando no portão ou ligando sem parar. Mande uma mensagem curta e carinhosa e siga com quem está à mesa. O dia continua sendo seu.
Se ele chegar alterado: não é hora de conversa séria. Chame-o para um canto, diga com calma que hoje não dá e que você quer conversar quando ele estiver bem. Se houver risco, siga a orientação de segurança mais abaixo.
Se ele prometer parar: receba com carinho e transforme a promessa em um passo concreto. “Fico feliz. Vamos juntos, na terça, conversar com alguém do CAPS?” Promessa sem plano costuma durar pouco, e não por falta de amor.
O que a lei garante à mãe e à família
Uma lacuna comum é achar que a família não tem lugar no tratamento. A Lei nº 10.216/2001, que trata dos direitos das pessoas com transtornos mentais, diz, no art. 3º, que a política de saúde mental deve ser feita com a devida participação da sociedade e da família. O art. 2º também garante à pessoa o direito a um tratamento que busque sua recuperação pela reinserção na família, no trabalho e na comunidade.
Na Lei de Drogas, o texto incluído pela Lei nº 13.840/2019 permite que a internação involuntária seja pedida por familiar ou pelo responsável legal, sempre depois da avaliação e da decisão de um médico. É medida de exceção, não um presente de Dia das Mães, e não deve ser decidida no calor de uma briga.
E há um ponto que muitas mães não sabem: a Lei Maria da Penha protege a mulher contra violência doméstica e familiar, inclusive quando quem agride ou ameaça é o próprio filho. O Ligue 180 orienta sobre esse caminho.
Onde a mãe também pode ser cuidada na Bahia
A mãe de quem usa também tem direito a atendimento, não só a acompanhar o filho:
- CAPS AD: os Centros de Atenção Psicossocial atendem quem usa e orientam a família. Em Salvador e na região metropolitana, o caminho completo está em onde buscar ajuda para dependência química em Salvador.
- CRAS do seu bairro: acompanhamento da família, orientação sobre benefícios e encaminhamento para outros serviços.
- Posto de saúde: para a sua insônia, a sua pressão, a sua tristeza. Você não precisa levar o filho para ser atendida.
- Grupos de familiares: Al-Anon, Nar-Anon e Amor-Exigente têm grupos presenciais e on-line; os horários ficam nos sites oficiais de cada um.
O cansaço de quem cuida não é frescura nem fraqueza. Se você cria o filho sozinha, veja também o guia para a mãe solo de filho dependente.
Quando é emergência
Procure ajuda imediatamente quando:
- o filho apresentar sinais de intoxicação grave, como desmaio, confusão intensa, dificuldade para respirar ou convulsão;
- houver ameaça, agressão ou quebra de objetos dentro de casa;
- ele, ou você, falar em não querer mais viver.
Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Em caso de violência, ligue 190. Se a dor apertar e surgir o pensamento de desistir, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família participa do plano terapêutico individual desde a chegada, com orientação da equipe, avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e sigilo. Conheça o nosso trabalho com as famílias. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- Culpa, raiva, saudade e esperança são reações comuns da mãe de dependente químico nessa data.
- Planejar o domingo antes, com formato, limites e respostas prontas, protege a mãe e a família.
- Promessa de parar vale mais quando vira um passo concreto, como uma consulta marcada.
- A lei dá lugar à família no tratamento e protege a mãe contra violência dentro de casa.
- A mãe também tem direito a ser cuidada: CAPS, CRAS, posto de saúde e grupos de familiares.
Perguntas frequentes
Meu filho prometeu parar de usar como presente de Dia das Mães. Posso acreditar?
Você pode receber a promessa com carinho, mas sem apostar tudo nela. A dependência é uma doença, e a vontade sincera de parar costuma não bastar sem tratamento. Uma resposta possível é agradecer e propor um passo concreto, como irem juntos a uma primeira consulta na semana seguinte.
Devo convidar meu filho para o almoço mesmo sabendo que ele está usando?
Depende da segurança de todos. Se ele costuma chegar alterado, ficar agressivo ou pedir dinheiro, vale combinar antes condições claras, como horário e almoço sem bebida, ou marcar um encontro curto em outro momento. Excluir não é a única saída, e expor a casa a uma crise também não.
Meu filho está internado. Consigo vê-lo no Dia das Mães?
Cada serviço tem regras próprias de visita, ligação e carta, e muitos organizam o contato da família por etapas do tratamento. Pergunte à equipe com antecedência o que é possível naquela semana. Se a visita não der, uma carta escrita com calma também chega e faz diferença.
É errado não ter vontade de comemorar a data?
Não. Tristeza, raiva e cansaço são reações comuns de quem convive com o uso de um filho. Você pode fazer algo menor, mudar o programa ou passar o dia com quem lhe faz bem. Cuidar do próprio sentimento também é uma forma de cuidar da família.
Meu filho me agrediu ou me ameaçou. A Lei Maria da Penha vale nesse caso?
Sim. A Lei Maria da Penha protege a mulher contra violência no ambiente doméstico e familiar, e isso inclui agressões vindas de um filho. A Central de Atendimento à Mulher, pelo Ligue 180, orienta sobre os caminhos. Em perigo imediato, ligue 190.
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