Mãe solo de filho dependente químico: como não carregar tudo sozinha

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

A mãe sozinha com filho dependente químico não precisa, nem consegue, carregar tudo. O caminho é dividir as tarefas do cuidado com uma rede: parentes e amigos para o dia a dia, CAPS AD e posto de saúde para o tratamento, CRAS para os direitos, grupos de apoio para você e, em risco, o 192. Cuidar de si é parte do cuidado com ele.

Talvez a sua história seja parecida: o pai sumiu ou nunca ajudou, os parentes se afastaram e tudo caiu nas costas dela. Se é o seu caso, você não precisa resolver tudo hoje, e não precisa resolver sozinha.

Por que a mãe solo sente que tudo depende dela?

Quando não há outro adulto em casa, a mãe vira ao mesmo tempo enfermeira, vigia, cofre, motorista e juíza das brigas. Ela tenta prever cada recaída, esconde o dinheiro, cobre faltas no trabalho e ainda cuida dos outros filhos. Com o tempo, a vida dela inteira passa a girar em torno do uso dele.

Esse padrão tem nome: codependência, quando a família adoece junto com quem usa. Um estudo com familiares de pessoas com dependência, publicado na Revista Mineira de Enfermagem, descreveu exatamente isso: cuidadores que deixam de lado a própria vida para controlar a do outro. Não é fraqueza nem falta de amor. É o que acontece com quem cuida sem descanso e sem ninguém do lado.

Há ainda um peso que a mãe solo costuma carregar calada: a ideia de que, se o filho usa, foi porque ela “não deu conta” de criar sozinha. A dependência é uma doença com muitas causas, e nenhuma mãe a produz sozinha.

Quais sinais mostram que você chegou ao limite?

Preste atenção se, nas últimas semanas:

  • você dorme pouco porque fica esperando ele chegar ou ouvindo cada barulho da casa;
  • deixou de ir ao médico, à igreja, à casa das amigas ou de fazer qualquer coisa só para você;
  • sente raiva dele e, logo depois, culpa por ter sentido raiva;
  • mente para parentes, vizinhos ou para o trabalho para encobrir o que acontece;
  • já pagou dívida dele, emprestou o nome ou tirou dinheiro da comida para evitar briga;
  • os outros filhos reclamam que você não tem mais tempo para eles;
  • tem crises de choro, dores pelo corpo, aperto no peito ou vontade de sumir.

Dois ou três desses sinais já pedem que você divida o peso. Se surgir a sensação de que a vida não vale a pena, procure ajuda hoje, como explicamos mais abaixo.

Quem pode dividir esse peso com você?

A rede não precisa ser grande nem perfeita. Precisa ter uma pessoa ou um serviço para cada tarefa, para que nenhuma delas dependa só de você.

TarefaQuem pode assumirComo pedir
Tratamento e avaliaçãoCAPS AD, posto de saúde ou equipe particularVá você, mesmo que ele não queira ir
Direitos, benefícios e rendaCRAS do seu bairroPeça acompanhamento da família, não só um auxílio
Seu próprio apoio emocionalAl-Anon, Nar-Anon, Amor-Exigente, psicólogoExperimente ao menos três reuniões antes de decidir
Ficar com ele ou com a casa por algumas horasIrmã, prima, comadre, vizinha de confiançaPeça um dia e um horário fixos, não “quando puder”
Dinheiro e contasOutro filho adulto, padrinho, o pai, se for possívelUma conta só, com valor certo
Proteção em caso de violênciaLigue 180, polícia, CREASNão espere a próxima agressão

O Ministério da Saúde explica que o CAPS AD atende pessoas com problemas ligados a álcool e outras drogas, e a família pode procurar o serviço para orientação. O CRAS acompanha a família inteira, de graça, e pode ser procurado sem a presença do filho; veja os detalhes em como o CRAS ajuda a família do dependente químico. Para escolher um grupo para você, leia grupos de apoio para familiares.

Uma dúvida comum é sobre o pai que sumiu. Quando ele não participa, a rede se monta sem ele. Quando ele aceita ajudar pouco, peça uma tarefa concreta, com dia marcado. Uma participação pequena e fixa vale mais que uma promessa grande.

O que a lei permite fazer mesmo sem o pai por perto?

A mãe solo costuma achar que precisa da assinatura ou da concordância do pai para agir. Em boa parte das situações, não precisa.

  • Internação involuntária: a Lei de Drogas, com o texto incluído pela Lei nº 13.840/2019, prevê a internação sem o consentimento da pessoa a pedido de familiar ou do responsável legal, sempre depois da decisão formal de um médico. A mãe pode pedir sozinha. É medida de exceção, para risco sério, e não a primeira opção.
  • Filho menor de idade: o art. 22 do Estatuto da Criança e do Adolescente dá aos pais, os dois, o dever de sustento, guarda e educação. O pai ausente continua com esse dever, e a Defensoria Pública pode orientar sobre pensão e responsabilidades. Para adolescente, a internação segue regras próprias, que valem uma conversa com a equipe de saúde.
  • Violência em casa: a Lei Maria da Penha protege a mulher contra a violência no ambiente doméstico e familiar, e pode valer também quando quem agride é o filho. O Ligue 180 orienta de graça. Leia o que fazer com o dependente químico agressivo em casa.

Como montar a sua rede em uma semana

Não tente mudar tudo de uma vez. Um passo por dia já muda o quadro:

  1. Dia 1 — Escreva o que você faz por ele. Liste tudo: acordar, levar, pagar, vigiar, buscar, esconder. Marque o que só você pode fazer. Quase sempre sobra pouca coisa.
  2. Dia 2 — Escolha três nomes. Uma pessoa da família ou da vizinhança, um serviço público e um grupo de apoio. Só três.
  3. Dia 3 — Faça um pedido concreto. “Você pode ficar com ele no sábado à tarde?” funciona melhor que “preciso de ajuda”.
  4. Dia 4 — Vá ao CAPS AD ou ao posto de saúde. Sozinha, se ele não quiser ir. Peça orientação para a família.
  5. Dia 5 — Procure o CRAS do seu bairro. Leve documentos e conte a situação da casa, não só a do filho.
  6. Dia 6 — Vá a uma reunião de grupo. Nos sites do Al-Anon, do Nar-Anon e do Amor-Exigente você encontra os horários e locais das reuniões mais perto de você.
  7. Dia 7 — Marque um horário seu. Uma caminhada, um culto, um café com uma amiga. Coloque na agenda como compromisso.

Na conversa com o filho, ajuda ter combinados claros, com poucas regras e consequências que você consegue cumprir. O panorama completo, para pai e mãe, em filho dependente químico: guia para os pais.

Também vale saber que existem programas que treinam a família para se comunicar com quem usa. Uma revisão publicada na revista Addiction concluiu que o CRAFT, um desses treinamentos para familiares, foi mais eficaz que outras abordagens para levar ao tratamento pessoas que antes o recusavam. Ou seja: a mudança na forma de a família agir pode abrir uma porta, sem que você precise carregar o filho nas costas.

Quando é hora de ajuda profissional ou de emergência?

Procure uma equipe de saúde quando:

  • o uso aumentou, há sinais de abandono do trabalho, da escola ou da higiene, ou ele some por dias;
  • você não consegue mais dormir, trabalhar ou cuidar dos outros filhos;
  • já houve ameaça, quebra de objetos ou agressão;
  • ele fala em parar de beber de uma vez depois de muito tempo bebendo, ou usa remédios calmantes sem receita: parar de repente, sem médico, pode ser perigoso e pede avaliação médica.
Se você ou seu filho falarem em não querer mais viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Em violência contra a mulher, ligue 180; em perigo naquele momento, 190.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família participa do tratamento junto com a pessoa, inclusive a mãe que chega sozinha. Oferecemos avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e sigilo. Veja como funciona o apoio às famílias. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • A mãe solo não precisa dar conta de tudo: o cuidado funciona melhor dividido em tarefas e pessoas.
  • Sono ruim, isolamento, culpa e dívidas pagas por ele são sinais de que você chegou ao limite.
  • CAPS AD, CRAS e grupos como Al-Anon, Nar-Anon e Amor-Exigente atendem a mãe mesmo sem o filho.
  • A mãe pode pedir sozinha a internação involuntária, que sempre depende de decisão médica.
  • Cuidar de si não é abandonar o filho: é o que permite continuar cuidando dele.

Perguntas frequentes

Posso pedir a internação involuntária do meu filho sozinha, sem o pai assinar junto?

Pode. A Lei de Drogas, com a redação da Lei 13.840/2019, diz que a internação involuntária é feita a pedido de familiar ou do responsável legal, e a mãe é familiar. Não é preciso a concordância do pai. Quem decide se a internação é necessária, porém, é sempre o médico, depois de avaliar o seu filho.

O pai do meu filho não ajuda em nada. Posso exigir alguma coisa dele?

Se o filho é menor de 18 anos, o Estatuto da Criança e do Adolescente dá aos dois pais o dever de sustento, guarda e educação, e a Defensoria Pública pode orientar sobre pensão e responsabilidades. Se o filho é adulto, ninguém pode ser obrigado a participar do tratamento, mas vale pedir uma tarefa concreta e pequena, como pagar uma conta ou fazer uma visita por mês.

Não tenho parentes por perto. Com quem posso contar?

A rede não precisa ser de sangue. CRAS, CAPS AD, posto de saúde, grupos como Al-Anon, Nar-Anon e Amor-Exigente, uma amiga, uma vizinha ou alguém da igreja podem assumir partes do cuidado. Comece por um só desses pontos nesta semana.

Cuidar de mim agora não é abandonar meu filho?

Não. Uma mãe que não dorme, não come e não sai de casa perde a calma e a força justamente quando o filho mais precisa dela. Cuidar da própria saúde, ter um horário seu e frequentar um grupo fazem parte de continuar cuidando dele por muito tempo.

Preciso largar o emprego para vigiar meu filho?

Na maioria das vezes, não, e perder a renda costuma deixar a casa mais frágil. Vigiar o tempo todo também não impede o uso. Antes de uma decisão assim, converse com a equipe que acompanha o caso sobre o que de fato precisa de você e o que pode ser dividido com outras pessoas ou serviços.

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