Filho bebe e não trabalha: como agir sem bancar a bebida

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026

Você não é obrigado a bancar a bebida do seu filho adulto. A lei só manda os pais ajudarem o filho maior de idade quando ele não consegue se sustentar e você pode ajudar sem se prejudicar. E ajudar pode ser comida, teto e tratamento, não dinheiro na mão. O caminho que funciona é cortar o que vira bebida, manter o que é cuidado e exigir avaliação médica.

A cena se repete em muita casa: o filho de 28, 35, 40 anos acorda ao meio-dia, não procura serviço, pega dinheiro “emprestado” da aposentadoria da mãe e volta cheirando a cachaça. Ela se sente usada e, ao mesmo tempo, com pena. Não precisa resolver tudo hoje.

O que a lei diz quando o filho adulto não trabalha

Muita gente acha que pai e mãe são obrigados a sustentar filho a vida inteira. Não é assim. Pelo Código Civil, art. 1.694, os parentes podem pedir uns aos outros “os alimentos de que necessitem para viver”. Mas o art. 1.695 coloca duas condições juntas: quem pede precisa não ter bens nem conseguir se manter pelo próprio trabalho, e quem paga precisa ter como ajudar sem desfalcar o próprio sustento.

Um filho adulto, com saúde para trabalhar, que escolhe não procurar emprego, não preenche a primeira condição. Já um filho que adoeceu com a bebida e não consegue mais segurar serviço pode preencher. Nesse caso, a ajuda vira obrigação, só que do jeito que a lei permite: o art. 1.701 diz que quem deve alimentos pode pagar uma pensão ou “dar-lhe hospedagem e sustento”. Ou seja, prato de comida, cama e tratamento pago contam. Dinheiro vivo para gastar como quiser, não. Se a família não se entender, o mesmo artigo deixa o juiz decidir a forma.

Tem mais um ponto que pouca gente conhece. O art. 4º, II, do Código Civil trata “os ébrios habituais” como relativamente incapazes para certos atos da vida civil. Isso não acontece sozinho: precisa de um processo na Justiça, com laudo médico, chamado curatela, em que alguém da família passa a responder por certos atos dele, como contratos e dívidas. Explicamos em curatela e interdição do dependente químico. O que importa aqui é o reconhecimento da lei de que a bebida é doença, não preguiça. E doença se trata.

Por que ele não procura emprego?

Para a família, a pergunta é: “por que ele não levanta e vai atrás?”. Para quem bebe todo dia, a ordem é outra. O corpo acorda pedindo. Antes de qualquer plano, vem a tremedeira, o suor, a ansiedade, e a primeira dose resolve tudo isso por um tempo. Isso é a abstinência: o corpo pedindo a bebida. Uma pessoa que acorda assim não consegue chegar às oito da manhã em um serviço.

A Organização Mundial da Saúde descreve o álcool como substância que causa dependência e que está ligada a dezenas de doenças e problemas sociais, entre eles a perda de trabalho. O desemprego e a bebida se alimentam um ao outro: ele perdeu o serviço porque bebia, e bebe mais porque perdeu o serviço. Sem tratar a bebida, cobrar emprego é cobrar de alguém que não está em condições.

Isso não quer dizer que ele seja incapaz para sempre. Quer dizer que a sequência certa é: tratamento primeiro, trabalho depois. Exigir na ordem errada só gera briga e frustração dos dois lados.

Atenção: quem bebe muito, todo dia, não deve parar de uma vez por conta própria. A parada brusca sem acompanhamento médico pode causar convulsão e confusão mental grave. Se ele quiser parar, a primeira ida é ao médico, ao posto de saúde ou ao CAPS AD (o serviço gratuito do SUS para álcool e drogas). Em emergência, ligue 192 (SAMU).

O que você está pagando sem perceber?

Faça esta conta com honestidade. Marque o que acontece na sua casa:

O que sai do seu bolsoVira bebida?O que fazer
Dinheiro “para o ônibus” ou “para o cigarro”Quase sempreParar. Dar a passagem carregada, não o dinheiro
Pagar a conta do bar ou do mercadinho que ele deixouSimAvisar o dono do bar que você não paga mais
Celular, internet e créditoEm parteManter o básico, cortar o extra
Comida, roupa limpa, camaNãoManter sempre
Remédio, consulta, tratamentoNãoManter e cobrar que ele vá
Pagar dívida com agiota ou traficanteSimNunca. Ameaça é caso de polícia

A regra é simples de falar e difícil de fazer: o que é cuidado fica, o que vira dose sai. Pai que “empresta” vinte reais todo dia está pagando a bebida do filho, mesmo sem querer. Veja mais em dar dinheiro para dependente químico: ajuda ou alimenta?.

Como falar com ele sem virar briga de mesa

A conversa que dá certo não é a da hora em que ele chega bêbado. Nessa hora, ninguém escuta. Escolha o começo da tarde, quando ele está mais sóbrio, e chame só quem vai falar a mesma coisa (se o pai corta e a mãe dá por baixo, nada funciona).

Um roteiro que a nossa equipe sugere às famílias:

  1. Diga o que você vê, sem rótulo. “Você está bebendo todo dia e faz meses que não trabalha.” Não diga “você é um vagabundo” nem “você é um bêbado”.
  2. Diga o que você sente. “Tenho medo de te perder. Estou cansada.”
  3. Diga o que muda a partir de agora. “A partir de segunda, não tem mais dinheiro na mão. Tem comida, tem casa e tem consulta marcada.”
  4. Ofereça o caminho pronto. Já leve o endereço do CAPS AD, o dia da reunião dos Alcoólicos Anônimos (AA) perto de casa ou o contato de um centro de tratamento. Não deixe para ele “procurar depois”.
  5. Sustente o combinado. A primeira semana ele vai testar. Vai pedir, vai ameaçar, vai dizer que você não ama ele. Mantenha o combinado sem gritar.

Um roteiro mais longo para essa conversa está em filho alcoólatra: o que fazer.

E se ele não aceitar nenhuma ajuda?

Acontece muito. Aí a família tem dois caminhos, e os dois são legais.

O primeiro é o limite com a casa. Um filho adulto que não trabalha, não se trata e só usa a casa para dormir a bebedeira pode ser chamado a sair, mas isso tem jeito certo de fazer, sem virar crime de abandono nem briga de vizinho. Explicamos em posso expulsar meu filho dependente de casa?.

O segundo é a internação sem o consentimento dele, quando a bebida coloca a vida dele em risco. A Lei 10.216/2001, art. 6º, permite a internação involuntária a pedido de terceiro, com laudo médico. Para dependência de álcool e drogas, a Lei 11.343/2006, art. 23-A (incluído pela Lei 13.840/2019), prevê a internação involuntária a pedido de familiar, com avaliação médica e prazo máximo de 90 dias, e exige que ela só aconteça quando os cuidados fora do hospital não deram conta. Não é castigo, é tratamento de saúde com proteção legal. Antes de pensar nisso, converse com um médico e com a nossa equipe; cada caso é um.

Se ele falar em não querer mais viver, não espere. Fique perto, tire o acesso a remédios e bebida, ligue para o CVV, 188 (gratuito, 24 horas), e em risco imediato ligue 192.

O que fazer agora: passo a passo para a família

  1. Hoje: pare de dar dinheiro vivo. Avise o bar e o mercadinho da esquina.
  2. Esta semana: marque uma consulta no posto de saúde ou no CAPS AD mais perto. Em Camaçari, Salvador e região metropolitana a rede é pública e gratuita; veja como funciona o CAPS AD.
  3. Esta semana: vá a uma reunião do Al-Anon, o grupo gratuito para a família de quem bebe, mesmo que ele não vá a lugar nenhum. É gratuito e ninguém pergunta seu nome.
  4. Nos próximos dias: faça a conversa do roteiro acima, com todos da casa falando a mesma coisa.
  5. Se ele topar tratamento: acompanhe na primeira consulta. Pergunte ao médico sobre a parada segura da bebida.
  6. Se ele recusar e piorar: procure orientação sobre internação involuntária. Não espere o “fundo do poço”; explicamos por que em esperar o fundo do poço não ajuda.

Quando procurar ajuda profissional

Não dá mais para resolver só em casa quando ele acorda tremendo e precisa beber para “ficar normal”; quando já perdeu o segundo ou terceiro emprego por causa da bebida; quando some por dias; quando fica agressivo ou ameaça alguém da casa; quando mistura bebida com remédio; ou quando a família está adoecendo junto, com a mãe sem dormir e o pai com pressão alta. Esse último ponto tem nome: a família adoecendo junto, que explicamos no artigo sobre codependência.

Se ele voltar a trabalhar e não aguentar por causa da saúde, existe o caminho do INSS, com perícia. Veja auxílio-doença para dependente químico.

Como podemos ajudar

O Centro Terapêutico Amor em Cristo fica em Monte Gordo, Camaçari, e recebe famílias de toda a Bahia. O tratamento para alcoolismo tem avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família participando desde o começo, sempre com sigilo. Na internação involuntária, orientamos a chegada e conduzimos a parte legal; o Diretor Jurídico orienta a família sobre documentos. Conheça o tratamento para alcoolismo e a nossa unidade em Camaçari. Modalidade particular; entregamos recibos, relatório com CID e plano terapêutico para reembolso.

Em resumo

  • A lei só obriga a ajudar filho adulto que não consegue se manter, e a ajuda pode ser comida, teto e tratamento, não dinheiro.
  • Quem bebe todo dia não está em condição de procurar emprego: tratamento vem antes do trabalho.
  • Corte o que vira bebida, mantenha o que é cuidado e avise quem vende fiado.
  • Faça a conversa sóbrio, com todos da casa combinados, e leve o caminho pronto.
  • Se ele recusar e a vida estiver em risco, a internação involuntária existe na lei e precisa de avaliação médica.

Perguntas frequentes

Meu filho diz que vai procurar emprego quando parar de beber. Eu espero?

Não espere parado. Quem bebe todo dia raramente consegue largar sozinho só com uma promessa. Responda que você acredita nele e que, por isso mesmo, vai marcar uma avaliação com médico ou no CAPS AD. O emprego vem depois que a bebida é tratada, não antes.

Se eu parar de dar dinheiro, ele vai beber mais ou fazer besteira?

Nos primeiros dias ele pode ficar bravo, fazer chantagem ou sumir de casa. Isso é a doença reagindo. Cortar o dinheiro da bebida e manter comida, teto e tratamento não é castigo: é tirar o combustível. Se houver ameaça de se machucar, trate como emergência e ligue 192 ou 188.

Ele tem mais de 30 anos e nunca trabalhou de carteira assinada. Tem algum direito?

Benefício por incapacidade do INSS depende de ter contribuído e de uma perícia mostrar que ele não consegue trabalhar. Sem contribuição, o caminho é diferente e passa pelo CRAS (o posto da assistência social da prefeitura) e pelo tratamento de saúde. O que existe para todo mundo é o SUS: CAPS AD, posto de saúde e grupos de apoio gratuitos.

Posso cobrar ajuda nas contas de um filho adulto que mora comigo?

Pode, e é saudável combinar isso por escrito: um valor fixo ou tarefas da casa em troca do teto. A lei não obriga os pais a manter um filho maior que tem condição de trabalhar. Só que, enquanto a bebida manda nele, a cobrança sozinha não resolve: ela precisa vir junto com a exigência de tratamento.

Ele promete parar, fica uns dias sem beber e volta. Isso quer dizer que não tem jeito?

Quer dizer que é dependência, e dependência não se resolve na força de vontade. Parar e voltar várias vezes é um sinal claro de que ele precisa de acompanhamento médico e psicológico. Cada tentativa mostra que ele quer; o que falta é o apoio certo.

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