Filho envolvido com o tráfico: o que a família pode fazer
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
Quando o filho está envolvido com o tráfico, a família deve agir em três frentes: proteger a casa, manter o vínculo e acionar a rede de proteção. Isso significa não confrontar quem comanda o ponto, não guardar nada para ele e não pagar dívidas sem orientação, conversar sem humilhar e procurar CREAS, Conselho Tutelar (se ele for adolescente), Defensoria Pública e, quando houver uso, tratamento.
Quem vive isso costuma sentir medo, vergonha e culpa ao mesmo tempo, e muitas vezes em silêncio, porque teme o que os vizinhos vão dizer. Você não precisa resolver tudo sozinha ou sozinho.
O que significa ter um filho envolvido com o tráfico?
O envolvimento quase nunca começa de uma vez. Muitas famílias contam que tudo começou com um favor pequeno, uma dívida de uso, a promessa de dinheiro rápido ou a vontade de pertencer a um grupo que parecia oferecer respeito. A fase de prevenção, como a do aliciamento de adolescentes pelas redes sociais, ficou para trás: a situação já está instalada, e a pergunta passa a ser como sair dela com o menor dano possível.
Duas ideias ajudam a família a não se perder na culpa. A primeira: um adolescente usado pelo tráfico é tratado pela lei também como vítima. O Decreto nº 6.481/2008, no art. 4º, III, inclui o recrutamento e a oferta de adolescentes para o tráfico de drogas entre as piores formas de trabalho infantil. A segunda: seu filho continua sendo seu filho. O vínculo com a família costuma ser um dos poucos fios que ainda o ligam a outra vida possível.
Quais sinais mostram que a situação já está instalada?
Nenhum sinal isolado prova nada, mas alguns, juntos e repetidos, merecem atenção:
- dinheiro, roupas, tênis ou celulares que não combinam com o que ele ganha;
- saídas em horários estranhos, sempre atendendo o telefone longe da família;
- um apelido novo, amigos novos que não entram em casa, medo de passar em certas ruas;
- abandono da escola ou do trabalho;
- pacotes, balanças ou objetos escondidos no quarto, ou pedidos para guardar “uma coisa de um amigo”;
- falas sobre dívidas, “tenho que pagar” ou “não posso sair agora”;
- irritação, insônia, sinais de uso de álcool ou drogas.
O que a lei diz quando o filho é adolescente e quando é adulto?
A diferença de idade muda tudo. A tabela resume o essencial:
| Situação | O que a lei prevê | Base |
|---|---|---|
| Filho com menos de 18 anos | Não responde a processo criminal; a conduta é ato infracional, e o juiz pode aplicar medidas socioeducativas, da advertência à internação em estabelecimento educacional | ECA, arts. 103, 104 e 112 |
| Adulto que usou o adolescente | Comete crime de corrupção de menores | ECA, art. 244-B |
| Tráfico que envolve criança ou adolescente | A pena do tráfico é aumentada de um sexto a dois terços | Lei nº 11.343/2006, art. 40, VI |
| Filho com 18 anos ou mais | Responde como adulto pelo crime de tráfico | Lei nº 11.343/2006, art. 33 |
| Quem guarda a droga para ele | “Guardar” e “ter em depósito” também estão no art. 33, e quem guarda pode ser processado | Lei nº 11.343/2006, art. 33 |
Em qualquer idade, ele tem direito a defesa. Procure a Defensoria Pública ou um advogado de confiança assim que houver apreensão, intimação ou prisão. E a família, em regra, não responde pelo crime do filho: entenda os limites em a família responde pelo crime do dependente?.
O que fazer agora para proteger a casa?
A prioridade é a segurança de quem mora com ele. Este passo a passo pode ser feito hoje:
- Não confronte quem comanda o tráfico. Ir ao ponto “tirar satisfação” ou negociar a saída do filho pode gerar represália contra ele e contra a família.
- Não guarde nada. Nada de droga, arma, dinheiro ou objetos “de um amigo” dentro de casa. Diga isso com calma e firmeza, e não abra exceção.
- Não pague dívidas às cegas. Pagar sem orientação pode alimentar novas cobranças. Antes, leia por que dar dinheiro ao dependente pede cuidado e busque ajuda da rede.
- Proteja os irmãos menores. Eles não levam recados nem objetos, e precisam saber a quem pedir ajuda.
- Combine um plano de emergência. Quem liga para quem, onde a família pode passar a noite se houver ameaça, quais números estão salvos no celular.
- Procure a rede pública. O CREAS acompanha famílias com direitos violados. Se ele for adolescente, o Conselho Tutelar do seu município também deve ser acionado.
- Cuide de você. Medo constante adoece. Os grupos de apoio para familiares e a reflexão sobre codependência ajudam a não deixar a vida da casa inteira girar em torno do tráfico.
Na Bahia, o Corra pro Abraço, programa do Governo do Estado, também acompanha jovens de bairros afetados pela violência ligada às drogas, em Salvador e em outras cidades onde atua.
Como conversar com um filho envolvido com o tráfico?
Gritar, expor na frente dos vizinhos ou dar ultimato no calor da briga costuma empurrá-lo para mais longe. Um roteiro simples ajuda:
- Escolha a hora. Quando ele estiver sóbrio e calmo, sem plateia.
- Comece pelo que sente. “Eu fico acordada esperando você chegar, com medo de receber uma notícia ruim.”
- Fale de fatos, não de rótulos. Em vez de “você virou bandido”, diga “eu vi o dinheiro e os horários, e isso me preocupa”.
- Pergunte e escute. “Você quer sair disso? Você está devendo? Alguém está te ameaçando?” A resposta mostra o tamanho do risco.
- Diga o limite e a porta aberta juntos. “Aqui dentro não entra nada do tráfico. E, se você quiser sair, eu vou estar do seu lado para procurar ajuda.”
Se a conversa virar agressão, interrompa e proteja-se. Ninguém precisa apanhar para provar amor.
Quando é emergência?
Ligue 190 (Polícia Militar) se houver ameaça em andamento, arma em casa ou alguém tentando invadir. Diante de intoxicação, ferimento ou risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Se o adolescente estiver ameaçado de morte, existe proteção específica. O Decreto nº 9.579/2018 mantém o Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM), que pode ser estendido aos pais e familiares que convivem com ele e, em alguns casos, a jovens de até 21 anos egressos do sistema socioeducativo. O pedido de inclusão é feito pelo Conselho Tutelar, pelo juiz, pelo Ministério Público ou pela Defensoria Pública.
Violações contra crianças e adolescentes também podem ser comunicadas ao Disque 100.
Se seu filho, ou você, falar em não querer mais viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato, procure a emergência ou ligue 192 (SAMU).
Como podemos ajudar
Quando o envolvimento vem junto com dependência de álcool ou drogas, o Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, oferece avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família participando do tratamento, com sigilo. Se seu filho for menor de idade, pergunte se o serviço atende o perfil. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- Proteja a casa primeiro: sem confronto, sem guardar nada e sem pagar dívida sem orientação.
- Para a lei, o adolescente usado pelo tráfico também é vítima, e quem o recrutou comete crime.
- Converse com fatos e sentimentos, mantendo limite claro e porta aberta.
- CREAS, Conselho Tutelar, Defensoria e, na Bahia, o Corra pro Abraço fazem parte da rede.
- Ameaça de morte contra adolescente pode levar à inclusão no PPCAAM, pedida pelo Conselho Tutelar, Ministério Público, Defensoria ou juiz.
Perguntas frequentes
Meu filho diz que só trabalha no tráfico e não usa nada. Ainda vale procurar tratamento?
Vale procurar ajuda, mesmo que não seja internação. Muitas vezes o uso vem junto ou aparece depois, mas o envolvimento sozinho já pede acompanhamento: CREAS, Conselho Tutelar no caso de adolescente e apoio psicológico para ele e para a família. Uma avaliação ajuda a saber se existe dependência e qual cuidado faz sentido.
Posso ir até quem manda no ponto pedir que deixem meu filho em paz?
Não é recomendado. Ir sozinho negociar pode expor você, seu filho e o resto da casa a represálias. Se houver ameaça, o caminho mais seguro é a polícia em emergência e, para adolescentes, o Conselho Tutelar, o Ministério Público ou a Defensoria Pública, que podem pedir a inclusão no programa de proteção a ameaçados de morte.
Meu filho de 15 anos foi apreendido com droga para vender. Ele vai para a prisão?
Não. Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, menores de 18 anos não respondem a processo criminal: a conduta é tratada como ato infracional, e o juiz pode aplicar medidas como advertência, liberdade assistida ou internação em estabelecimento educacional. Ele tem direito a defesa, e a família deve procurar a Defensoria Pública ou um advogado logo.
O adulto que colocou meu filho adolescente no tráfico responde por isso?
Sim. Levar um menor de 18 anos a praticar infração penal é crime previsto no art. 244-B do ECA, e a Lei de Drogas aumenta a pena do tráfico quando ele envolve criança ou adolescente. A lei também classifica o uso de adolescentes no tráfico como uma das piores formas de trabalho infantil.
Tenho filhos menores em casa. Como protegê-los enquanto o mais velho está envolvido?
Combine regras claras: nada de droga, arma ou dinheiro do tráfico dentro de casa, e nenhum dos menores levando recados ou objetos. Converse com eles sem detalhes assustadores e diga a quem podem pedir ajuda. O CREAS e o Conselho Tutelar podem acompanhar a família quando há risco para as crianças.
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