Filho que usa droga pede para voltar: o que combinar

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centroAtualizado em 02/11/2026

Foto real do Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari: área de convivência ao ar livre

Imagine a cena: domingo à noite, o celular acende com uma mensagem — “Mãe, posso voltar? Prometo que é diferente agora”. Faz semanas que o filho saiu batendo a porta, e a casa ficou em silêncio. Quem lê não sabe se sente alívio, saudade ou medo, e costuma sentir os três ao mesmo tempo.

Quando um filho que usa droga pede para voltar para casa, a resposta não precisa sair na hora, e também não precisa ser só sim ou só não. O que costuma proteger a casa e abrir caminho para o tratamento é um terceiro caminho: responder depois de pensar, em conjunto com quem mora na casa, e só aceitar a volta com um combinado simples, por escrito, com data para ser revisto.

O que está por trás do pedido de voltar?

O pedido pode ter motivos diferentes, e vale tentar descobrir qual é o de hoje antes de decidir:

  • Ele cansou da rua ou da casa de amigos e quer um lugar seguro. É um momento em que ele pode estar mais aberto a ouvir sobre tratamento.
  • Faltou dinheiro, comida ou lugar para dormir. O pedido é de necessidade, não necessariamente de mudança.
  • Ele quer voltar a usar o espaço da casa do mesmo jeito que antes: sem regras, com acesso a dinheiro e a coisas que podem ser vendidas.
  • Ele realmente decidiu mudar e quer a família por perto para isso.

Quase nunca dá para saber a verdade só pelas palavras. Por isso o combinado importa mais que a promessa: ele permite ver o que a pessoa faz, em vez de depender do que ela diz.

Perguntas para fazer a si mesmo antes de responder

Não existe resposta certa para todas as casas. Estas perguntas ajudam a decidir com mais calma:

  1. Quem mais mora aqui e como a volta afeta essa pessoa? Crianças, idosos e pessoas doentes precisam estar protegidos da instabilidade.
  2. O que aconteceu na última vez que ele esteve em casa? Furtos, agressões, ameaças e uso dentro de casa pesam muito na decisão.
  3. Há risco para mim ou para alguém da casa? Se a resposta for sim, a prioridade é segurança. Em caso de agressão ou ameaça, ligue 190.
  4. Ele aceita alguma forma de ajuda hoje? Consulta no CAPS AD, grupo de apoio ou avaliação em um serviço de tratamento são sinais mais concretos do que uma promessa.
  5. Eu tenho forças para sustentar uma regra quando ela for testada? Combinado que a família não consegue cumprir vira só mais uma frase.

Se você tiver dúvida sobre os limites que a lei coloca, vale ler posso expulsar meu filho dependente de casa?, que explica o que é permitido a quem mora com um adulto da família.

Como responder no primeiro momento?

A mensagem chegou de noite, o coração acelerou e a tentação é responder logo, para o que for. Uma resposta curta, calma e sem prazo falso costuma servir:

“Filho, recebi sua mensagem. Eu te amo e quero conversar. Preciso falar com [nome do outro responsável] e te respondo amanhã às 18 horas, por ligação. Se você estiver bem, vem aqui falar comigo, mas não vamos decidir nada agora.”

Dois detalhes importam: você marca a hora da resposta (assim ele aprende que a decisão não sai na pressão) e a conversa acontece sóbria, em local combinado. Se ele aparecer sob efeito de substância ou bebida, a conversa fica para outro dia, sem briga.

O que combinar por escrito antes da volta?

A pesquisa que comparou formas de a família levar uma pessoa resistente ao tratamento, publicada em 1999 no Journal of Consulting and Clinical Psychology, concluiu que a abordagem CRAFT, que treina a família para reforçar o que é saudável e deixar de reforçar o uso, levou mais pessoas ao tratamento do que os outros dois métodos testados, entre eles o confronto. Veja a explicação do método em como a família pode usar o CRAFT. Aplicada à volta para casa, a lógica é simples: a casa acolhe quem está tentando se cuidar, e não financia nem esconde o uso.

Um combinado curto, que cabe em uma folha, pode ter estes itens. Adapte à sua casa:

ItemExemplo de redação
Duração“Pode ficar por 15 dias. No dia ___ nós conversamos de novo.”
Substâncias“Não se usa nem se guarda bebida ou droga dentro de casa, nem se chega sob efeito.”
Tratamento“Nesta semana você vai marcar uma consulta no CAPS AD ou com um serviço de saúde, e eu posso ir junto.”
Dinheiro“Não vou dar dinheiro em espécie. Compro passagem e comida quando precisar.”
Objetos“Cada um cuida do que é seu. Se faltar algo na casa, a conversa é imediata.”
Visitas“Amigos que usam não entram em casa.”
O que acontece se quebrar“Se uma regra for quebrada, nós conversamos no mesmo dia. Se acontecer de novo, a hospedagem termina na data combinada e eu ajudo a pensar onde você pode ficar.”

Leia o combinado em voz alta, com todos os adultos da casa presentes, e peça que ele diga com as próprias palavras o que entendeu. Se ele recusar qualquer regra, essa recusa também é uma informação.

E se ele quebrar o combinado?

Vai acontecer em algum momento, e isso não significa que tudo foi em vão. O que importa é cumprir o que foi escrito, sem sermão e sem surpresa. Se o combinado dizia que a hospedagem terminava, ela termina, com calma, e com a oferta aberta de ajuda para o tratamento. O NIDA lembra que a recaída é um sinal para retomar, ajustar ou trocar o tratamento, e não prova de que ele não funciona. Veja também recaída: o que fazer.

Cuidado com a armadilha da mentira “de proteção”, que faz a família cobrir o uso diante dos vizinhos, do trabalho ou dos parentes. Ela costuma desgastar a confiança em casa; mentir pelo filho que usa droga mostra por que e o que dizer no lugar.

Quando o pedido de voltar vem com ameaça?

Algumas famílias recebem o pedido junto com uma ameaça: “se você não deixar eu voltar, eu me mato” ou “eu vou fazer você se arrepender”. As duas são sérias, e pedem respostas diferentes:

  • Ameaça de ferir os outros: a segurança vem primeiro. Não negocie sozinha, não receba a pessoa dentro de casa sob ameaça e ligue 190.
  • Fala de não querer viver: leve a sério, ouça sem julgar e não deixe a pessoa sozinha, se estiver perto. Procure ajuda profissional imediatamente.
Se alguém falar em acabar com a própria vida, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

O que fazer se a resposta for não por enquanto?

Dizer não à volta imediata não é dizer não a ele. Você pode:

  1. Manter o contato em horários que você consegue suportar, como uma ligação curta todo dia à mesma hora.
  2. Oferecer a ajuda que você pode dar: levar a uma consulta, ir junto ao CAPS AD, acompanhar a uma avaliação num serviço de tratamento.
  3. Avisar o que muda a resposta: “Quando você estiver em tratamento, a gente conversa sobre voltar”.
  4. Cuidar de você. Quem sustenta um limite precisa de apoio, e os grupos para familiares existem para isso.

Ao lado de outros adultos da casa, repita a mesma frase todas as vezes. Quando a resposta muda conforme quem atende o telefone, o limite perde a força.

Como podemos ajudar

Se a conversa mostrar que ele aceita uma avaliação, o tratamento para dependência química do centro inclui plano terapêutico individual, avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e acompanhamento da família, com sigilo. Quem está em Salvador e região pode falar com a equipe pelo WhatsApp para entender como funciona. Para o contexto geral do tema, leia o texto sobre codependência e a família que adoece junto.

Em resumo

  • Responda depois de pensar, com quem mora na casa e com data marcada para dar a resposta.
  • Antes de decidir, pergunte sobre segurança, histórico recente e disposição dele para algum tratamento.
  • Se aceitar a volta, faça um combinado curto, por escrito, com prazo e revisão.
  • Cumpra o que escreveu: consequência combinada, sem sermão e com a porta do tratamento aberta.
  • Dizer não ao que ele pede hoje não é dizer não a ele: o contato e a oferta de ajuda continuam.

A internação pode ser uma possibilidade?

Sim. A internação pode fazer parte do tratamento da dependência química, do alcoolismo ou de quadros de saúde mental quando os cuidados fora do hospital são insuficientes. A indicação depende de avaliação médica individual — não é necessária para todas as pessoas e não deve ser decidida apenas pela leitura de um artigo.

No Centro Terapêutico Amor em Cristo Bahia, você pode conversar com a equipe sobre essa possibilidade e os próximos passos. Antes de qualquer decisão, confirme se o serviço atende à idade, ao perfil e às necessidades da pessoa, além das condições de atendimento. O contato pelo WhatsApp não garante vaga nem substitui a avaliação médica.

Conforme o art. 4º da Lei 10.216/2001. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Perguntas frequentes

Dizer não ao pedido de voltar é abandonar meu filho?

Não. Abandonar é deixar de se importar; dizer não a uma condição específica, como voltar sem nenhuma regra, é um cuidado com a casa e com ele. Você pode recusar a volta de hoje e manter o contato, as ligações e a oferta de ajuda para tratamento.

E se ele não tiver para onde ir e disser que vai dormir na rua?

É uma frase que dói e que merece ser levada a sério, mas ela não obriga você a aceitar qualquer condição. Pergunte se há outro familiar, ofereça a rede pública, como o CRAS e o CAPS AD da cidade, e mantenha uma porta aberta: a de procurar ajuda, não a de voltar sem combinado.

Posso aceitar a volta só por alguns dias, para ver como é?

Pode, desde que o prazo e as regras estejam combinados antes e ditos em voz alta, com data para conversar de novo. Um “vamos ver” sem data costuma virar moradia sem regra, e fica mais difícil mudar depois.

Preciso concordar sozinha ou o outro responsável da casa também decide?

Quem mora na casa e vai viver a rotina deve participar. Quando os adultos dão respostas diferentes, quem usa costuma procurar o mais fácil de convencer. Chegue a uma resposta única antes de falar com ele, mesmo que seja “ainda estamos decidindo”.

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