Filho traz amigos que usam droga para casa: o que fazer

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026

A casa é sua, e a regra é sua. Você pode proibir que seu filho e os amigos dele usem droga dentro de casa, e pode decidir quem entra e quem não entra. Isso não é crime nem falta de amor. O que a lei pune é quem sabe que a casa virou ponto de venda e deixa. O caminho é regra clara, dita na calma, e ajuda para o filho.

Filho traz amigos que usam droga para casa: o que a lei diz

A primeira dúvida da família é se ela mesma está correndo risco. Vamos por partes.

Usar droga não dá cadeia, mas continua proibido. O art. 28 da Lei de Drogas (Lei nº 11.343/2006) trata quem guarda ou carrega droga para uso próprio com advertência, serviço à comunidade ou curso educativo. Para a maconha, o STF fixou no Tema 506 que carregar até 40 gramas para uso pessoal não é crime, mas segue proibido. Ou seja: o amigo do seu filho não vai preso por fumar na sua sala. Mas ninguém tem o direito de fazer isso lá.

O dono da casa só responde se a casa virar ponto de venda. O art. 33, §1º, III, da mesma lei pune quem “consente” que outra pessoa use o lugar de que tem posse para o tráfico. A palavra que pesa é tráfico. Amigo fumando no quintal não encaixa aí. Agora, se um deles passa a vender ou guardar pacote para repassar dentro da sua casa, e você sabe e deixa, muda de figura. Por isso “fingir que não vê” é uma saída ruim.

Quem divide droga com o amigo também responde. O §3º do art. 33 pune quem oferece droga, de vez em quando e sem lucro, para pessoa conhecida, para usarem juntos. A pena é menor que a de tráfico, mas é crime. Seu filho, ao dividir com os colegas na laje, pode estar nessa situação sem vender nada.

Menor de idade na história muda tudo. O Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe entregar a menor de 18 anos bebida alcoólica ou produto que cause dependência (art. 81) e faz disso crime no art. 243. E, pelo Código Civil, arts. 932 e 933, pai e mãe pagam pelo dano que o filho menor causa a terceiros, mesmo sem culpa direta. Explicamos isso em a família responde pelo crime do dependente?.

Por que a casa dos pais vira o lugar de usar

A turma escolhe a sua casa porque ali ninguém incomoda. Na rua tem polícia e olhar de vizinho. Na casa de vocês tem Wi-Fi, quintal com muro alto e pais que trabalham o dia inteiro.

E tem a frase que derruba muita família: “pelo menos eu sei onde ele está”. Só que, assim, o uso acontece sem custo nenhum. Em vez de proteger, a casa facilita. Botar o amigo para fora parece botar o filho para fora, e esse medo é real, mas não pode decidir sozinho. Se a sua vida já gira em torno de evitar briga com ele, leia sobre quando a família adoece junto.

Quem mais corre risco quando a casa vira ponto de uso

Quem mora ali também está no meio:

  • Irmãos menores, que aprendem que aquilo é normal e às vezes ganham a primeira oferta dentro de casa.
  • Avós e pessoas doentes, sem sossego e com medo de gente estranha entrando e saindo.
  • Remédio controlado, dinheiro e celular, que somem do armário e da bolsa.
  • A vizinhança: cheiro, barulho e movimento de madrugada acabam em reclamação.

Quando um irmão de 12 anos convive com isso todo fim de semana, a conversa é sobre proteger quem ainda não escolheu nada.

Como botar a regra da casa sem virar guerra

Não adianta gritar com a turma na sala: o filho ganha plateia. Faça assim:

  1. Escolha o dia e a hora. Converse com ele sozinho, de manhã, sem ninguém alterado.
  2. Diga a regra em uma frase. “Nesta casa não entra droga e ninguém usa. Nem você, nem amigo.” Sem sermão.
  3. Diga o motivo que é seu. “Tenho sua irmã aqui, tenho sua avó, e a casa está no meu nome.”
  4. Separe o amigo do uso. “Seu amigo pode vir almoçar, jogar bola. Para usar, não.”
  5. Combine o que acontece se furar. Perder a chave do portão, os amigos não entrarem mais. Só prometa o que vai cumprir.
  6. Pai e mãe na mesma página. Se um proíbe e o outro libera, a regra morre em uma semana.
  7. Ofereça a saída junto com a regra. “Se você quiser parar, eu vou com você no posto, no médico, onde for.”

Se a conversa travar antes de começar, temos um roteiro em como conversar com dependente sem brigar.

E se ele disser que então vai usar na rua?

Essa ameaça quase sempre vem. Responda com honestidade: “A rua é perigosa mesmo. Por isso eu quero que você se trate, não que você use aqui.” Não entre na barganha. A regra da casa não acaba com a dependência de ninguém, mas tira a sua casa do circuito e deixa o uso mais custoso.

Os padrões de prevenção da UNODC e da OMS apontam que o que funciona na família é acompanhamento próximo dos pais, regras claras e vínculo afetivo, tudo junto. Não é regra sem amor, nem amor sem regra. Se o filho ainda é adolescente, decidir sobre o cuidado dele é dever seu, inclusive sobre tratamento para menor de idade.

Quando procurar ajuda profissional

Alguns sinais mostram que a regra da casa, sozinha, não vai dar conta:

  • ele usa mesmo depois de combinado e de perder o que foi combinado;
  • a turma entra quando você não está, ou de madrugada;
  • apareceu pacote ou balança em casa, ou gente desconhecida bate na porta;
  • você passou a dormir com medo e a esconder bolsa e remédio.

Nesses casos, procure o CAPS AD da sua cidade (o posto do SUS que cuida de quem usa álcool e droga, de graça) ou uma avaliação com médico. Em Camaçari e região, veja a página de clínica de reabilitação em Camaçari. Quando ele não aceita de jeito nenhum e está se colocando em risco, existe o caminho da internação involuntária, com avaliação médica e dentro da lei.

Se alguém passar mal durante o uso, desmaiar, convulsionar ou não acordar, ligue 192 (SAMU) ou leve à emergência mais próxima.

Como podemos ajudar

O Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, faz avaliação psiquiátrica presencial e monta um plano terapêutico individual, com enfermagem 24 horas e a família participando. Na internação involuntária, conduzimos a parte legal e orientamos a chegada. Atendimento particular, com recibo, relatório com CID e plano terapêutico para reembolso. Pergunte se o serviço atende o perfil do seu familiar.

Em resumo

  • Usar droga dentro da sua casa é proibido por lei, mesmo sem dar prisão, e você pode vetar.
  • O dono da casa só responde se souber que o lugar virou ponto de venda e deixar.
  • Menor de idade na história aumenta o risco jurídico de todo mundo.
  • Regra curta, dita na calma, com motivo concreto e consequência que você cumpre.
  • Regra fecha a porta do uso; a ajuda profissional abre a porta da recuperação.

Perguntas frequentes

Posso proibir o amigo do meu filho de entrar na minha casa?

Pode. A casa é sua e quem entra nela é decisão sua. Isso não é maldade nem crime: é o direito de quem mora e responde pelo lugar. Avise ao filho antes, com calma, para que ele não seja pego de surpresa na frente dos colegas.

Se a polícia entrar na minha casa e achar droga do amigo do meu filho, eu respondo?

Em regra, a droga é de quem a trouxe ou de quem a guarda. A lei só alcança o dono da casa quando ele sabe que o lugar está sendo usado para vender droga e deixa. Mesmo assim, uma busca em casa é um susto enorme e pode arrastar a família para uma investigação na delegacia. Por isso a regra da casa vale a pena.

Meu filho é maior de idade e diz que o quarto é dele. Ele pode usar lá dentro?

O quarto fica dentro da sua casa, e a regra da casa é de quem responde por ela. Ser maior de idade dá a ele o direito de decidir sobre a própria vida, não de transformar a casa dos pais em lugar de uso. Se ele não aceita a regra, a conversa passa a ser sobre tratamento ou sobre morar em outro lugar.

Posso chamar a polícia pra tirar os amigos do meu filho da minha casa?

Se eles se recusam a sair depois de você pedir, ficar ali contra a sua vontade já é um problema que a polícia pode resolver. Deixe isso como último recurso, porque a chegada da viatura pode terminar com o seu próprio filho levado junto. Antes, tente fechar a porta sem público: fale com ele sozinho, em outro momento.

Devo avisar os pais do amigo que ele usa droga na minha casa?

Se o amigo é menor de idade, sim: os pais dele precisam saber, e você faria questão de ser avisada no lugar deles. Fale pessoalmente ou por ligação, sem grupo de WhatsApp e sem acusação. Diga o que viu, não o que acha que ele é.

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