Filho usa droga e não sai do quarto: como chegar nele
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Se o seu filho usa droga e não sai do quarto, a porta fechada é a doença falando, não desprezo por você. O primeiro passo é saber se ele está em segurança hoje: se come, se responde, se há risco de passar mal ou de se machucar. Depois, o caminho é abrir uma ponte pequena, sem invasão e sem briga, e levar a família a uma avaliação médica, que é o que a lei pede para qualquer internação.
O que a lei diz: o quarto é dele, a casa é sua
Nenhuma lei proíbe pai ou mãe de entrar no quarto do próprio filho na própria casa. O que existe é bom senso: entrar na marra costuma fechar ainda mais a pessoa. Se ele for menor de idade, veja como internar filho menor de idade.
Sobre internar, a lei diz duas coisas. A Lei 10.216/2001, no art. 6º, diz que a internação psiquiátrica só acontece com laudo médico. E a Lei de Drogas (Lei 11.343/2006), no art. 23-A, permite que a família peça a internação involuntária quando a pessoa não aceita tratamento, mas sempre com decisão de médico, só quando os cuidados fora do hospital não deram conta, com comunicação ao Ministério Público em até 72 horas e por no máximo 90 dias. A família pede; quem decide se é caso de internar é o médico, não a polícia nem a clínica.
Filho usa droga e não sai do quarto: o que o silêncio está dizendo
Quem se tranca, na maioria das vezes, não está “escolhendo” sumir. O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA explica que a droga mexe nas áreas do cérebro que cuidam da vontade, do prazer e do controle. O que antes dava prazer, como sair com os amigos ou almoçar em família, perde a graça. Sobra o quarto, o celular e a substância.
Junte a isso a vergonha. Ele sabe que você sabe. Cada vez que sai do quarto, encontra seu olhar de preocupação e a pergunta engasgada. É mais fácil esperar todo mundo dormir. Por isso a noite vira dia: ele come às três da manhã e dorme enquanto a casa trabalha. E dentro do quarto ele usa sem ser visto e esconde o que precisa esconder. O quarto vira o lugar onde a doença se organiza.
Quando o quarto fechado vira sinal de perigo
Nem toda porta trancada é emergência. Mas alguns sinais pedem ação na hora, mesmo que ele não queira.
| O que você percebe | Por que preocupa | O que fazer hoje |
|---|---|---|
| Não responde quando você bate e chama, mesmo com força | Ele pode ter passado mal lá dentro | Entre no quarto. Se não acordar ou respirar estranho, ligue 192 (SAMU) ou vá à emergência mais próxima |
| Dias seguidos sem comer nem beber água | O corpo não aguenta muito tempo assim | Ofereça água e comida na hora; se recusar tudo, procure um serviço de saúde |
| Fala em morrer, em “não aguentar mais”, ou se despede | Risco de se machucar | Fique com ele, tire do quarto objetos perigosos e ligue para o CVV (188) ou 192 |
| Agressão ou ameaça quando alguém bate na porta | Risco para quem mora na casa | Não enfrente sozinha; veja o que fazer com o dependente agressivo em casa |
Se ele não acordar, ou se você achar que ele vai se machucar, não espere passar. Ligue 192 (SAMU). O CVV atende no 188, de graça, a qualquer hora, para ele e para você.
Como chegar nele: passo a passo para a família
Pense em ponte, não em porta arrombada. Ponte se faz devagar.
- Garanta o básico sem discurso. Água, comida, roupa limpa, entregues na mão sempre que der, com uma frase curta: “tá aqui, filho”.
- Marque presença fora do quarto. Diga, pela porta, que você está em casa, que vai fazer o almoço. Ele precisa saber que a casa continua existindo do lado de fora.
- Escolha um horário bom. Madrugada, quando ele acabou de usar, não serve. Costuma ser melhor quando ele sai sozinho, de manhã cedo ou no fim da tarde, mais sóbrio.
- Fale uma coisa só. “Eu vejo que você não está bem. Eu te amo e quero te ajudar. Quando você quiser, a gente conversa.” E saia, sem esperar resposta. A frase fica.
- Convide para algo pequeno. Um café na cozinha. Ir ao mercadinho da esquina. Dez minutos fora do quarto já é vitória.
- Procure você primeiro a ajuda. CAPS AD da sua cidade, médico do posto, grupo do Nar-Anon. Chegue nele com um caminho pronto, não com uma cobrança.
- Combine com a casa. Pai, mãe e irmãos falando a mesma coisa. Um promete, outro ameaça, e ele se fecha mais. Veja como convencer um dependente a se tratar e, se a vida de todos já gira em torno dele, codependência: quando a família adoece junto.
O que piora, mesmo com boa intenção
- Bater na porta de hora em hora. Vira guerra: ele tranca com mais força e você grita mais.
- Cortar luz, internet ou tirar a porta no susto. Tira ele do quarto e tira junto a confiança. Se for fazer, que seja regra combinada, junto com uma proposta de tratamento.
- Vasculhar o quarto e jogar fora o que achou. Se achou algo, leia achei droga no quarto do meu filho antes de agir.
- Deixar o prato e sumir. O quarto não pode virar um apartamento separado dentro da sua casa.
- Esperar que “passe sozinho”. Costuma só dar mais tempo para a doença.
Quando procurar ajuda profissional
Procure ajuda agora se ele está há semanas sem sair, emagreceu, parou de trabalhar ou estudar, ou já passou mal no quarto. O CAPS AD é o serviço do SUS para álcool e outras drogas, e a família pode ir sem ele. Veja como o CAPS AD funciona.
Se ele recusa tudo e há risco, a família pode pedir avaliação para internação involuntária. Começa pelo laudo médico, nunca pela força. As regras estão na página de internação involuntária.
Como podemos ajudar
O Centro Terapêutico Amor em Cristo fica em Monte Gordo, Camaçari, e atende famílias de toda a Bahia. O acolhimento tem avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família participando. Na internação involuntária, orientamos a chegada e conduzimos a parte legal, com o Diretor Jurídico acompanhando a família. Pergunte se o serviço atende o perfil do seu filho.
Em resumo
- A porta trancada é a doença se organizando, não falta de amor por você.
- Primeiro garanta a segurança: se ele não responde, ligue 192; se fala em morrer, CVV 188.
- A lei deixa a família pedir internação, mas só o médico decide, com laudo.
- Chegue nele com ponte pequena: comida na mão, frase curta, convite de dez minutos.
- Procure ajuda antes dele: CAPS AD, grupo de família, avaliação médica.
Perguntas frequentes
Posso tirar a porta do quarto do meu filho?
A casa é sua e você pode decidir isso, mas pense no efeito. Tirar a porta no meio de uma briga costuma fechar ainda mais a pessoa e piorar a relação. Funciona melhor quando vem como regra combinada e explicada, junto com uma proposta de ajuda, e não como castigo.
Meu filho trocou o dia pela noite. Isso tem a ver com a droga?
Pode ter. Quem usa muitas vezes fica acordado de noite e dorme de dia, e trocar o horário também é um jeito de não cruzar com a família. Mas depressão e outros problemas de saúde mental fazem o mesmo, por isso uma avaliação médica é importante.
Devo continuar deixando o prato na porta do quarto?
Comer é necessidade, não é prêmio. Continue oferecendo comida, mas use o prato como ponte: bata, diga que está ali, pergunte se ele quer comer na mesa com você. O que não ajuda é deixar o prato e ir embora calada, dia após dia, como se o quarto fosse outra casa.
Ele tem mais de 18 anos. Posso chamar a polícia para tirá-lo do quarto?
A polícia não interna ninguém e não tira ninguém do quarto só porque a família pediu. Ela entra quando há crime, agressão ou risco de vida. Se o problema é saúde, o caminho é o SAMU (192) na emergência e, fora dela, a avaliação médica que pode indicar a internação.
Ele diz que só fica no quarto jogando e que não usa nada. Como saber?
Olhe o conjunto, não uma coisa só: cheiro, objetos estranhos, dinheiro sumindo, visitas rápidas no portão, dias sem comer, emagrecimento. Ficar muito tempo no quarto por causa de jogo também é problema e também merece ajuda. Nos dois casos, uma avaliação profissional tira a dúvida.
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