Filho some de casa por dias por causa da droga: o que fazer

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026

Seu filho some de casa por dias por causa da droga e depois volta como se nada tivesse acontecido. Isso tem nome: é o ciclo do uso. Na volta, você cuida do corpo dele e não briga. No dia seguinte, sóbrio, vocês combinam regras. E a cada sumiço sem notícia, você registra na delegacia, sem esperar 24 horas. Nenhum desses três passos resolve sozinho, mas juntos eles tiram a família do desespero e abrem caminho para o tratamento.

Quem vive isso conhece a cena: a mãe que não dorme, o pai que roda a madrugada de carro, o irmão que sente raiva e depois culpa.

O que a lei diz sobre sumir, voltar e ser internado

Três leis importam aqui. A família quase nunca conhece nenhuma delas.

A primeira é a Lei de Drogas, no art. 23-A. Ela diz que a família pode pedir a internação involuntária do filho adulto, sem o consentimento dele, mas quem autoriza é um médico, depois de avaliar o tipo de droga, o jeito que ele usa e se as outras formas de tratamento já foram tentadas sem resultado. Essa internação dura só o tempo da desintoxicação (o período em que o corpo se livra da droga, com acompanhamento médico), com limite de 90 dias, e a família pode pedir ao médico que a interrompa a qualquer momento. A lei também proíbe internação à força em comunidade terapêutica: internação é em unidade de saúde. Explicamos tudo em internação involuntária é legal?.

A segunda é a Lei 13.812/2019, que trata de pessoa desaparecida. Para ela, desaparecido é quem ninguém sabe onde está, não importa o motivo. Não existe prazo de espera. E ela manda a polícia agir na hora quando há sinal de que a pessoa está em risco. Quem usa droga e some sem notícia está nessa situação, e a família pode dizer isso na delegacia.

A terceira é o Estatuto da Criança e do Adolescente, que vale se o seu filho tem menos de 18 anos. Aí a responsabilidade é sua, o sumiço é registrado na hora e o Conselho Tutelar entra no caso.

Por que ele some e depois volta?

Muita mãe pergunta: “se ele gosta de casa, por que some?”. Ele some porque, quando a droga chama, o resto da vida fica pequeno. O dinheiro acaba, a fissura (aquela vontade forte de usar) passa, o corpo cai. Então ele volta. Volta para comer, dormir, tomar banho e, muitas vezes, arrumar dinheiro para o próximo ciclo.

Isso não quer dizer que ele não ama a família. Quer dizer que a doença manda mais que o amor naquele momento. A casa vira ponto de parada entre um uso e outro. Entender isso ajuda a tirar da cabeça a ideia de que ele faz por maldade, e ajuda a parar de esperar que a próxima promessa seja diferente da anterior.

O lado perigoso do padrão é que a família se acostuma. No primeiro sumiço, todo mundo rodou a cidade. No décimo, a mãe só deixa a janela destrancada e reza. Esse costume é o que a gente chama de a família adoecendo junto: ela passa a viver em função do ciclo dele. Leia sobre isso em codependência, quando a família adoece junto.

Como receber meu filho quando ele voltar?

A hora em que ele entra pela porta não é hora de conversar. Ele está sujo, magro, sem dormir, com vergonha ou ainda alterado. Você está com três dias de raiva guardada. Qualquer palavra vira briga, e a briga vira desculpa para sair de novo.

Uma regra simples para a volta:

  1. Primeiro o corpo. Água, prato de comida, banho, cama. Sem perguntas.
  2. Olhe o estado dele. Se está muito agitado, falando coisa sem sentido, com dor no peito ou mal se aguentando em pé, é hospital, não cama.
  3. Guarde o sermão. Você vai falar, mas não agora. Diga só: “Que bom que você voltou. Amanhã a gente conversa.”
  4. Tranque o que precisa. Carteira, cartão, chave do carro, celular dos irmãos. Sem alarde.
  5. Deixe ele dormir. Depois de dias de uso o corpo cobra, e ele pode dormir um dia inteiro.
Se ele chegar desacordado, com respiração fraca, convulsão ou lábios roxos, ligue 192 (SAMU) na hora. Se falar em não querer mais viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça, e também pelo site do CVV.

O que combinar com ele no dia seguinte?

A conversa que presta acontece quando ele está limpo, alimentado e descansado. De preferência de dia, com uma pessoa só da família, sem plateia. O objetivo não é fazer ele confessar nem prometer. É combinar três coisas que vocês dois aguentam cumprir:

O que combinarExemplo do que a casa pode dizerPor que ajuda
Aviso de vida“Se for sair, manda uma mensagem a cada dia. Só ‘estou vivo’ já serve.”Reduz o pânico e dá à família um sinal para agir
Porta e horário“Depois das 23h a porta não abre. Antes disso, entra sem pergunta.”Tira a família de pé de madrugada sem fechar a casa para ele
Dinheiro“Comida e remédio a gente dá. Dinheiro na mão, não.”Corta o combustível do próximo ciclo sem negar cuidado

Escreva o combinado num papel e cole na geladeira. Parece bobagem, mas tira a discussão do “eu nunca disse isso”. Veja mais em como colocar limites no dependente químico e dar dinheiro para o filho dependente: ajuda ou alimenta?.

E uma pergunta que a equipe ouve toda semana: “e se ele não cumprir?”. Ele provavelmente vai quebrar o combinado nas primeiras vezes. O que muda é que agora a família tem uma régua. Em vez de brigar por tudo, você aponta para o papel.

Quando registrar na delegacia?

Registre toda vez que ele some sem dar notícia por mais tempo do que o combinado. Não precisa esperar 24 horas e não precisa ter certeza de que algo deu errado. Na Bahia, em Salvador, o registro é feito na Delegacia de Proteção à Pessoa; fora da capital, na delegacia mais perto, inclusive pelo plantão. A página da Polícia Civil da Bahia explica o serviço.

Algumas famílias têm vergonha de “encher” a delegacia com o mesmo nome. Pense ao contrário: o histórico é a sua proteção. Se um dia ele chegar a um hospital sem documento, ou for parado pela polícia, o registro ajuda a achar você. E se ele aparecer, você volta lá e avisa, como a lei pede. O passo a passo da delegacia, o que levar e o que contar está em familiar dependente químico desapareceu.

Não vá sozinho atrás dele em ponto de uso. Em Salvador, na região metropolitana e no interior, quem roda a madrugada procurando o filho corre risco real, e o filho pode pagar por isso depois. Passe a informação para a polícia.

O que fazer agora, se ele está fora de casa neste momento

  1. Mande uma mensagem só, curta, sem cobrança. “Só quero saber se você está bem.” Nada de ameaça.
  2. Ligue para quem ele costuma procurar. Primo, ex-namorada, amigo do bairro. Peça para avisarem se ele aparecer.
  3. Registre na delegacia se passou do tempo que vocês combinaram ou se há sinal de perigo.
  4. Prepare a volta. Comida feita, cama arrumada, dinheiro e documentos guardados.
  5. Decida quem conversa com ele no dia seguinte. Uma pessoa só, calma.
  6. Procure quem atende hoje. CAPS AD da cidade, grupo de familiares, ou uma avaliação particular. A conversa de tratamento rende mais se a família já souber onde ele pode ser atendido.
  7. Cuide de quem ficou. Os irmãos menores precisam de rotina normal, não de vigília.

Quando é hora de pensar em internação?

Nem todo sumiço pede internação. Muitas pessoas conseguem se tratar em casa, com acompanhamento no CAPS AD ou com psiquiatra e psicólogo. Mas alguns sinais mostram que o cuidado fora do hospital não está dando conta, que é justamente a exigência da lei para internar:

  • os sumiços estão ficando mais longos e mais seguidos;
  • ele volta cada vez mais magro, machucado ou com sinais de briga;
  • apareceram dívidas com gente perigosa, ameaças ou furtos em casa;
  • já houve tentativa de tratamento sem internar (consulta, CAPS AD, grupo) e ele não se mantém;
  • ele falou em se matar, ou a família tem medo de que ele morra na rua.

Com esses sinais, a família pode procurar uma avaliação psiquiátrica e, se for o caso, pedir a internação, inclusive involuntária, dentro das regras do art. 23-A. Se o uso é de crack, há um guia específico em filho usuário de crack. Se ele aceita conversar, veja como convencer um dependente a se tratar.

Se o seu filho tem menos de 18 anos, não deixe o ciclo virar rotina. Leve a escola, o posto de saúde e o Conselho Tutelar para o caso, porque a lei dá a eles o dever de proteger o adolescente.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família é ouvida antes de qualquer decisão. A equipe faz avaliação psiquiátrica presencial e monta um plano terapêutico individual, com enfermagem 24 horas e sigilo. Na internação involuntária, orientamos a chegada e conduzimos a parte legal, e o Diretor Jurídico tira as dúvidas da família sobre a lei. Conheça a internação involuntária. Recebemos famílias de Camaçari, de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Sumir e voltar faz parte do ciclo da droga; não é maldade e não é fase.
  • Na volta, cuide do corpo e guarde a conversa para o dia seguinte, com ele sóbrio.
  • Combine por escrito aviso de vida, horário da porta e dinheiro.
  • Registre na delegacia a cada sumiço sem notícia; não existe prazo de 24 horas.
  • A internação involuntária é possível, mas quem decide é o médico, nos termos do art. 23-A da Lei de Drogas.

Perguntas frequentes

Ele chega e dorme dois dias seguidos. Isso é normal?

Depois de dias usando, o corpo cobra: a pessoa dorme muito, come muito e fica irritada. Deixe descansar e ofereça água e comida. Se ele não acordar direito, respirar devagar ou tiver convulsão, é emergência: ligue 192.

Devo cobrar explicação na hora em que ele entra pela porta?

Não. Nessa hora ele está exausto, com vergonha ou ainda alterado, e a conversa vira briga. Receba, cuide do básico e marque a conversa para quando ele estiver limpo e descansado, de preferência no dia seguinte, com a cabeça no lugar.

Se eu não deixar ele entrar de madrugada, estou abandonando meu filho?

Não, se a regra foi combinada antes e tem um caminho: a porta abre às tantas horas, ou ele dorme na casa do tio. Abandono é largar sem saída. Limite é dizer com clareza o que a casa aguenta e o que não aguenta, sem sumir da vida dele.

Da próxima vez que ele voltar, posso internar à força?

A família pode pedir a internação involuntária, mas quem decide é um médico, depois de avaliar o caso e de ver que as outras formas de tratamento não deram conta. É a regra do art. 23-A da Lei de Drogas. Ninguém pode simplesmente levar o filho adulto à força para uma clínica.

Meu filho tem 16 anos e some assim. Muda alguma coisa?

Muda bastante. Com menor de idade, os pais respondem por ele e devem registrar o sumiço na hora. O Conselho Tutelar e a rede de saúde entram no caso, e o tratamento é decidido pelos responsáveis com a equipe médica. Não espere o padrão virar rotina.

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