Padrasto bebe e minha mãe não vê problema: o que fazer

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centroAtualizado em 24/10/2026

Foto real do Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari: estrutura e natureza

Quando o padrasto bebe e a sua mãe diz que “está tudo bem”, o caminho mais seguro é parar de tentar provar o problema e começar a cuidar da relação com ela. Quem confronta a mãe de frente costuma ouvir uma defesa do marido. Quem conversa sem acusar, observa o que está de fato acontecendo e se prepara para os dias de crise tende a manter a porta aberta.

Esta situação é solitária. Você vê o que acontece dentro da casa, mas não é o dono dela, e o homem que bebe não é o seu pai. Dá para agir mesmo assim.

Por que a minha mãe não enxerga o que eu vejo?

Quase nunca é falta de inteligência ou de amor por você. Quem vive ao lado de uma pessoa que bebe vai se ajustando aos poucos: o que assustava no começo vira “o jeito dele” em poucos meses. Há também a vergonha de admitir um casamento difícil, o medo de ficar sozinha, a dependência de dinheiro e a esperança de que ele mude.

Para ela, concordar com você pode soar como admitir uma derrota. Por isso o mesmo comentário que parece óbvio para você chega como ataque. Entender isso muda o tom da conversa.

Como puxar o assunto com ela sem virar inimigo do casal?

Escolha um momento calmo, longe dele e longe de uma discussão recente. Algumas regras simples ajudam:

  1. Fale do que você viu, não do que ele é. Em vez de “seu marido é alcoólatra”, diga: “no sábado ele caiu na sala e eu fiquei com medo”.
  2. Comece pelo cuidado com ela. “Eu me preocupo com você” abre mais portas do que “você tem de largar ele”.
  3. Pergunte antes de afirmar. “Como você tem se sentido nesses dias?” dá espaço para ela falar, e ouvir também é uma forma de ajudar.
  4. Não cobre uma decisão na hora. Uma conversa de dez minutos, repetida de vez em quando, rende mais do que um debate de duas horas.
  5. Evite o ultimato. “Ou ele sai ou eu saio” raramente funciona e pode afastar você justamente da pessoa que precisa de apoio.

O guia como conversar com quem tem dependência sem brigar traz exemplos de frases que valem também para a conversa com a sua mãe.

Quando o padrasto bebe e eu moro na mesma casa

Quem divide o teto com ele sente o problema no dia a dia: barulho de madrugada, discussões, dinheiro que some, a casa que vira um campo minado. Alguns cuidados reduzem o desgaste:

  • Evite conversar com ele quando ele está bebendo. A discussão de bêbado não é lembrada no dia seguinte, e o que você disse pode virar motivo de briga.
  • Combine com a sua mãe o que você faz quando o clima esquenta. Sair para a casa de um parente, ir para o quarto, ligar para alguém de confiança. Ter um plano reduz o improviso.
  • Proteja o que é seu e de quem depende de você. Documentos, cartões, remédios e a rotina das crianças, se houver, ficam em lugar seguro.
  • Mantenha uma rede fora de casa: um tio, uma amiga, uma vizinha de confiança. Quem enfrenta isso sozinho se desgasta rápido.

Se há crianças na casa, veja também como proteger os filhos menores quando alguém da casa usa droga. E se o problema atinge outro membro da família que bebe, leia como ficam as brigas em pai bebe e briga com a mãe.

Existe um método para a família ajudar quem recusa tratamento?

Existe. O CRAFT (Community Reinforcement and Family Training, em português algo como treinamento da família com reforço comunitário) é uma abordagem para pessoas próximas de quem usa álcool ou drogas e recusa tratamento. Ela ensina a melhorar a comunicação, a reagir de forma diferente ao comportamento da pessoa, a cuidar do próprio bem-estar e a falar do tratamento no momento certo. Um estudo-piloto publicado na PubMed Central, com 40 familiares, registrou melhora na convivência da família em três e seis meses; os próprios autores avisam que a amostra era pequena e que são necessários estudos maiores.

Em linguagem simples, a lição é esta: você não controla a bebida dele, mas controla o jeito como reage a ela. Elogiar os dias bons, não encobrir os dias ruins e não discutir durante o uso fazem parte desse jeito. O texto sobre codependência, quando a família adoece junto explica por que cuidar de si não é egoísmo.

Violência, queda ou abstinência: quando deixa de ser só conversa

Há situações em que esperar a mãe “enxergar” já não é opção:

  • Violência ou ameaça contra a sua mãe, contra você ou contra crianças. Ligue 190. A mulher também pode ligar para o Ligue 180, que orienta e encaminha casos de violência contra a mulher.
  • Maus-tratos a pessoa idosa ou a criança dentro da casa. O Disque 100 recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive de forma anônima.
  • Ele cai, desmaia ou fica sem responder depois de beber muito. Procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
  • Ele para de beber de uma vez e começa a tremer, ficar confuso ou ter convulsão. Parar de repente, sem acompanhamento médico, pode ser perigoso. É caso de avaliação médica urgente.
Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Em caso de violência, ligue 190. Se alguém falar em não querer mais viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Quem pode ajudar na rede pública, além da conversa

O CAPS AD é o serviço público de saúde mental para quem tem problemas com álcool e outras drogas, e também orienta familiares. Mesmo que o seu padrasto não queira ir, a sua mãe ou você podem procurar o serviço para conversar e entender como lidar com a situação. A rotina de um CAPS AD é explicada aqui.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a avaliação psiquiátrica presencial e o plano terapêutico individual consideram a família como parte do cuidado, com sigilo. Conheça o tratamento para alcoolismo e as informações para quem vem de Salvador. Para conversar sobre a situação da sua casa, fale com a nossa equipe.

A internação pode ser uma possibilidade?

Sim. A internação pode fazer parte do tratamento da dependência química, do alcoolismo ou de quadros de saúde mental quando os cuidados fora do hospital são insuficientes. A indicação depende de avaliação médica individual — não é necessária para todas as pessoas e não deve ser decidida apenas pela leitura de um artigo.

No Centro Terapêutico Amor em Cristo Bahia, você pode conversar com a equipe sobre essa possibilidade e os próximos passos. Antes de qualquer decisão, confirme se o serviço atende à idade, ao perfil e às necessidades da pessoa, além das condições de atendimento. O contato pelo WhatsApp não garante vaga nem substitui a avaliação médica.

Conforme o art. 4º da Lei 10.216/2001. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Perguntas frequentes

Posso exigir que meu padrasto saia da casa da minha mãe?

Não por conta própria. A casa é da sua mãe e dele, e a decisão sobre quem mora ali cabe a eles. O que você pode fazer é conversar com a sua mãe, proteger quem depende de você e, se houver ameaça ou violência, acionar a polícia pelo 190.

Minha mãe fica irritada quando falo do assunto. Devo parar de falar?

Não precisa parar, mas vale mudar a forma. Falar do que você viu e do que sente, sem chamar o marido dela de nada, costuma gerar menos defesa do que apontar defeitos. Conversas curtas e repetidas funcionam melhor do que uma grande discussão.

Padrasto pode ser levado a tratamento se ele não quiser?

Adulto tem o direito de recusar tratamento. O que muitas vezes muda a situação é a família aprender a reagir de outro jeito ao comportamento dele e a deixar o tratamento sempre ao alcance, para o momento em que ele se abrir.

Minha mãe pode procurar ajuda mesmo que ele não queira se tratar?

Pode. Familiares podem buscar orientação no CAPS AD ou em grupos de apoio para famílias sem que a pessoa que bebe participe. É um espaço para a sua mãe entender o que está vivendo e decidir com mais calma.

Devo esconder ou jogar fora a bebida dele?

Não é um bom caminho. Costuma gerar briga, não resolve a causa e pode colocar você em risco. Para entender por que, leia o artigo da nossa equipe sobre esconder a bebida em casa.

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