Reunião de família sobre dependente: roteiro em 6 passos
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centroAtualizado em 06/11/2026

Faça uma reunião só da família, sem a pessoa que usa, com no máximo uma hora, e saia dela com três combinados por escrito: quem ajuda em quê, o que ninguém faz mais e quem fala com a pessoa. A reunião de família sobre dependente químico não serve para achar culpado. Serve para que a ajuda deixe de ser uma colcha de retalhos em que cada um puxa para um lado.
Todo mundo conhece a cena. A mãe dá dinheiro escondido, o tio diz “é falta de vergonha”, a irmã mora longe e só opina por mensagem, o avô acha que “é fase”. A pessoa que usa percebe as brechas antes de qualquer um e usa a que estiver aberta.
Por que a família inteira precisa combinar?
Um combinado só vale se todos o seguem. Se a mãe se recusa a dar dinheiro e o tio dá, a regra da mãe vira a única que pesa contra ela. O trabalho com famílias desenhado para quem resiste ao tratamento, conhecido pela sigla CRAFT, parte exatamente daí: treina quem convive com a pessoa em comunicação e em reforçar o que é saudável. Um estudo publicado na revista Addiction descreve o CRAFT como uma opção eficaz para levar ao tratamento pessoas que resistem a ele, e um estudo com três estratégias de intervenção por meio de familiares comparou abordagens para esse mesmo fim.
Também há pesquisa qualitativa sobre como as relações sociais influenciam a recuperação, como a de Pettersen e colegas. Em linguagem simples: o que a família faz, junta ou dividida, entra no caminho da pessoa.
Quem chamar e quem deixar de fora?
Chame quem tem contato real com a pessoa ou ajuda de fato: pais, irmãos, cônjuge, avós que moram perto, um tio com quem ela conversa. Deixe de fora, nesta primeira vez, quem só vai julgar, quem está no meio de uma briga antiga com outro parente e a própria pessoa que usa.
Cinco a seis pessoas é um bom tamanho. Acima disso a reunião vira assembleia. Se há um parente que provoca briga toda vez, mande a ele o resumo depois.
Como organizar o dia e o lugar?
- Hora: longe de uma crise e de qualquer bebida na mesa. Não vale logo depois de um episódio de uso, quando todos estão com raiva.
- Lugar: a casa de quem a pessoa que usa não frequenta, ou uma chamada de vídeo se a família for espalhada.
- Duração: uma hora, com alguém olhando o relógio.
- Anotador: uma pessoa escreve os combinados em uma folha ou no celular e manda para todos ao final.
Roteiro da reunião, passo a passo
- Abertura (5 minutos). Quem convocou diz uma frase só: “Estamos aqui porque todos gostamos dele e hoje cada um tenta ajudar de um jeito. Quero que a gente escolha um jeito só.” Sem relatório de tudo o que ele já fez de errado.
- Uma rodada de medos (10 minutos). Cada um fala em uma frase o que mais teme. “Tenho medo de que ele morra” abre a conversa; “você sempre passou a mão na cabeça dele” fecha. Quem interromper espera a vez.
- O que cada um já faz (10 minutos). Quem dá dinheiro, quem dá abrigo, quem busca na rua, quem mente para o patrão. Ouvir tudo em voz alta mostra para a família o tamanho do que ela sustenta sem perceber.
- O que ninguém faz mais (15 minutos). Aqui estão os combinados difíceis. Exemplos: não dar dinheiro em mão; não mentir por ele; não pagar dívida sem falar com os outros. Para aprofundar o ponto do dinheiro, leia dar dinheiro para dependente químico: ajuda ou combustível?.
- O que a família oferece (10 minutos). Também escolham o que está de pé: acompanhar a uma consulta, levar a um grupo, ficar com a criança numa tarde, uma refeição sem cobrança. Limite sem oferta vira castigo; oferta sem limite vira sustento do uso.
- Quem fala com ele e quando (10 minutos). Uma pessoa só, de preferência a que tem melhor conversa com ele, fala em nome de todos, em momento tranquilo. Veja como conversar com dependente químico sem brigar.
No fim, o anotador lê os três combinados em voz alta. Marquem uma nova data, em duas a quatro semanas, para ver o que funcionou.
Frases prontas para os momentos difíceis
Há três momentos em que a reunião costuma travar. Algumas frases que ajudam:
- Quando alguém começa a acusar: “Vamos falar do que a gente vai fazer daqui para frente. O que passou eu anoto e vemos depois.”
- Quando um parente diz “isso é fase”: “Pode ser. Mesmo assim, vamos combinar de levar para uma avaliação profissional e todos escutam o resultado.”
- Quando alguém diz “eu não consigo cumprir isso”: “Então diga qual parte você consegue. Um combinado menor que todos seguem vale mais que um grande que ninguém segue.”
Sobre o jeito de falar com e sobre a pessoa, o Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA reúne orientações de linguagem em Words Matter. A ideia central é usar termos que descrevam uma condição de saúde, como “pessoa com dependência”, e não rótulos. Na reunião, isso evita que o encontro vire julgamento.
Se a sua família está nesse ponto e quer ajuda para organizar a conversa, fale com a nossa equipe.
E se o combinado for quebrado?
Vai acontecer. Alguém cede por pena, alguém esquece, alguém desiste. O combinado não precisa de perfeição, precisa de revisão.
- Fale do fato, não da pessoa. “Ele recebeu dinheiro na quinta e voltou alterado” é um fato; “você destrói tudo” é um ataque.
- Revise a regra se ela era impossível. Às vezes a regra era dura demais para quem mora com ele todos os dias.
- Ofereça apoio a quem quebrou. Quem cede escondido geralmente age por culpa ou medo, e precisa de acolhimento, não de sentença.
- Cuide de quem cuida. Grupos como o Al-Anon e o Nar-Anon recebem familiares mesmo quando a pessoa que usa não quer se tratar.
Se a briga entre parentes for entre os próprios pais, leia também quando pai e mãe discordam sobre o tratamento do filho. Para entender o quanto o clima da casa pesa em todos, veja o artigo sobre codependência, quando a família adoece junto.
Quando não esperar a reunião acontecer
Há situações que não podem aguardar o acordo da família:
- a pessoa fala em não querer viver ou em se machucar;
- há sinais de intoxicação grave, confusão, desmaio ou convulsão;
- ela bebe muito todos os dias e parou de repente: parar de uma vez, sem médico, pode ser perigoso;
- há agressão contra alguém da casa.
Nesses casos, qualquer um da família pode agir sem consultar os outros. A conversa de longo prazo fica para depois.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família participa do tratamento e pode ser ouvida em conjunto, com sigilo. Conheça o atendimento às famílias e o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Camaçari, Salvador e de toda a Bahia.
A internação pode ser uma possibilidade?
Sim. A internação pode fazer parte do tratamento da dependência química, do alcoolismo ou de quadros de saúde mental quando os cuidados fora do hospital são insuficientes. A indicação depende de avaliação médica individual — não é necessária para todas as pessoas e não deve ser decidida apenas pela leitura de um artigo.
No Centro Terapêutico Amor em Cristo Bahia, você pode conversar com a equipe sobre essa possibilidade e os próximos passos. Antes de qualquer decisão, confirme se o serviço atende à idade, ao perfil e às necessidades da pessoa, além das condições de atendimento. O contato pelo WhatsApp não garante vaga nem substitui a avaliação médica.
Conforme o art. 4º da Lei 10.216/2001. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Perguntas frequentes
E se um parente se recusar a participar da reunião?
Faça a reunião com quem aceitar e leve o resultado por escrito para o ausente, sem cobrar resposta na hora. Quem não vem hoje às vezes aceita um combinado simples, como “não dou dinheiro em mão”. Convide de novo na próxima revisão, sem fazer disso uma briga.
A pessoa que usa deve participar da reunião?
Não na primeira. A primeira reunião é para a família alinhar o que pensa, o que oferece e o que não faz mais. Depois, uma conversa calma com a pessoa, em que um só fala em nome de todos, costuma funcionar melhor do que uma plateia de dez parentes.
Quanto tempo deve durar a reunião?
Uma hora basta. Reuniões longas viram desabafo e acabam em acusação. Se o assunto não coube, marque a segunda parte em vez de esticar a primeira.
Dá para fazer a reunião por videochamada?
Dá, principalmente quando a família mora em cidades diferentes. Combine antes quem fala primeiro e mande o resumo por escrito ao final, para ninguém sair com uma versão diferente do que foi decidido.
Vale chamar um profissional para conduzir?
Quando a família já tentou conversar e brigou, sim. Um profissional de saúde ou o grupo de apoio da região pode mediar. Isso não significa fracasso: significa que o assunto pesa mais do que uma conversa de sala consegue carregar.
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Às vezes este texto é o que falta para uma família dar o primeiro passo.