Saudade do filho internado: como aguentar os dias

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026

A saudade do filho internado dói mais nos primeiros dias porque, além da falta dele, você fica sem notícia. Esse silêncio do começo faz parte do tratamento, tem explicação e tem prazo. O que ajuda a aguentar é saber o que a lei garante, combinar com a equipe como vêm as notícias e preencher as horas vazias com uma coisa de cada vez.

Você fez a parte mais difícil: colocou ele lá dentro. Agora a casa está quieta, o prato dele sobra na mesa e o celular não toca.

O que a lei diz sobre o seu filho internado

Saber o que está escrito na lei acalma uma parte da cabeça. A Lei de Drogas, no art. 23-A, diz que a internação só cabe quando os cuidados fora do hospital não deram conta, e que precisa ser autorizada por médico. Se o seu filho está lá, é porque um médico olhou o caso dele e entendeu que era preciso.

A mesma lei separa dois tipos. Na voluntária, ele assinou que queria. Na involuntária, a família pediu, o médico confirmou, e o tratamento dura só o tempo necessário, com prazo máximo de noventa dias. E um ponto que toda mãe precisa saber: na involuntária, a família pode, a qualquer tempo, pedir ao médico a interrupção. Você não perdeu o seu filho para ninguém.

Já a Lei nº 10.216/2001, no art. 2º, garante a quem está internado o direito de ser tratado com humanidade e respeito e de ter livre acesso aos meios de comunicação disponíveis. Isso não quer dizer celular na mão o dia inteiro. Quer dizer que o contato é organizado pela equipe, mas existe. Para entender o que a equipe pode contar, veja o que o sigilo permite dizer à família.

Por que a saudade do filho internado aperta tanto?

Porque é uma falta diferente das outras. Quando um filho viaja, você sabe onde ele está e pode mandar mensagem. Aqui, ele está a poucos quilômetros e você não pode ouvir a voz dele. A cabeça preenche o silêncio com o pior: será que está chorando, será que está me odiando, será que vai fugir.

Tem outra coisa que pouca gente fala. Antes, a sua vida girava em torno dele: vigiar, esperar chegar, esconder dinheiro, acordar de madrugada. De repente, tudo isso para. O corpo, acostumado a viver em alerta, não sabe o que fazer com a calma. Muita mãe nos conta um vazio esquisito, como se tivesse perdido o emprego. É a família adoecendo junto, o que o pessoal da saúde chama de codependência. Falamos disso em codependência: quando a família adoece junto.

Um estudo brasileiro com familiares de pessoas em tratamento de saúde mental, publicado nos Archives of Clinical Psychiatry, mediu o peso que esses cuidadores carregam e viu que ele é alto, e maior entre quem cuida há mais tempo. Em palavras simples: a saudade cai em cima de um cansaço antigo. Por isso dói tanto.

O silêncio dos primeiros dias é normal?

É, e tem motivo. Nos primeiros dias o seu filho está no pior momento do corpo pedindo a substância. Irritado, dormindo mal, querendo ir embora. Uma ligação sua nessa fase vira, quase sempre, um pedido de resgate: “mãe, me tira daqui”. E você, com saudade, cede. A equipe segura o contato para proteger vocês dois desse momento.

O que você pode e deve fazer é combinar, logo na chegada, três coisas:

O que combinarPor que importa
Quem da equipe fala com a família e em que diaVocê para de ligar a esmo e espera um horário certo
Como mandar um recado para ele (bilhete, carta, foto)A saudade vira gesto, em vez de ficar só na cabeça
Quando é a primeira visita e quem pode irVocê tem uma data para contar os dias

Se o lugar não quer combinar nada disso, acenda o sinal amarelo. Falta de notícia por regra é uma coisa; porque ninguém atende é outra. Para o passo a passo dessa fase, veja o que a família faz na primeira semana da internação.

O que fazer hoje para aguentar o dia

Não tente dar conta da semana. Dê conta de hoje.

  1. Escreva para ele agora. Conte o que aconteceu em casa: o cachorro, a vizinha, o jogo. Nada de cobrança. Leve na visita ou entregue para a equipe. Temos um roteiro em carta para familiar internado.
  2. Tire o prato dele da mesa, mas não mexa no quarto. O lugar vazio à mesa alimenta a dor todo dia. O quarto, deixe como está para ele encontrar a casa dele na volta.
  3. Ocupe as mãos. Faça o almoço que você não fazia há meses, arrume o armário, vá à feira. O corpo que viveu anos em alerta precisa de tarefa simples para se acalmar.
  4. Conte para uma pessoa só. Uma irmã, uma amiga, alguém da igreja. Saudade dividida pesa menos.
  5. Marque na parede o dia da visita. Risque um dia por noite. A saudade fica menor quando tem data.
  6. Vá a uma reunião de familiares. O Nar-Anon e o Al-Anon têm grupos de graça para quem tem alguém na família que usa drogas ou bebe. Lá você senta ao lado de outra mãe que viveu a mesma semana que você.

Quando chegar o dia de ir, leia antes o que falar na visita, porque a primeira costuma ser a mais tensa.

E se a saudade virar vontade de tirar ele de lá?

Essa vontade vai bater, quase sempre à noite, depois de uma ligação dele chorando. Antes de pegar o carro, faça uma coisa só: ligue para a equipe e pergunte como ele está de verdade. Quem está dentro vê o que você não vê.

Lembre da lei: você tem o direito de pedir a interrupção, e ele continua lá amanhã. Por isso não precisa decidir hoje. A saudade diminui depois da primeira visita, e muita mãe que quase tirou o filho na primeira semana agradece, depois, por ter esperado.

Quando a saudade pede ajuda para você também

Saudade é normal. O que não é normal é ela te derrubar. Procure um posto de saúde, um CAPS ou um psicólogo se, por vários dias seguidos, você:

  • não consegue dormir nem comer;
  • não levanta da cama nem para o básico;
  • sente culpa o tempo inteiro, como se tivesse feito algo imperdoável;
  • começa a beber ou a tomar remédio para dormir por conta própria;
  • pensa que seria melhor não estar mais aqui.
Se vierem pensamentos de não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça, por telefone e chat. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Cuidar de você não é abandonar ele. Quando ele voltar, vai precisar de uma mãe de pé.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família não fica no escuro: há um canal combinado para notícias, visitas organizadas e participação da família no plano terapêutico individual, com enfermagem 24 horas, avaliação psiquiátrica presencial e sigilo. Veja como a família participa do tratamento e a nossa unidade em Camaçari.

Em resumo

  • A saudade dói mais no começo porque falta a notícia, não só o filho.
  • A lei exige autorização médica e, na internação involuntária, deixa a família pedir a interrupção a qualquer tempo.
  • Quem está internado tem direito a ser tratado com respeito e a ter acesso aos meios de comunicação, organizados pela equipe.
  • Combine na chegada quem dá notícia, como mandar recado e quando é a visita.
  • Cuide de um dia por vez, divida a saudade com alguém e procure ajuda se ela te derrubar.

Perguntas frequentes

É normal eu chorar todo dia de saudade do meu filho internado?

É. Ele saiu de casa de repente, e o seu corpo ainda procura por ele nos horários de sempre. Chorar não é fraqueza nem sinal de que você errou. O que pede atenção é quando o choro vem junto com não comer, não dormir e não conseguir levantar da cama por vários dias.

Posso mandar um recado para ele mesmo sem poder ligar?

Na maioria dos lugares, sim. Pergunte à equipe como funciona: muitos aceitam um bilhete ou uma carta, lida pela equipe antes de entregar. Escreva coisas simples, de casa, sem cobrança. Guarde o que ele responder.

A saudade quer dizer que eu fiz errado em internar?

Não. A saudade é o tamanho do amor, não a medida do erro. Pela lei, a internação só cabe quando os cuidados fora do hospital não foram suficientes, e quem confirma isso é o médico. Se a decisão passou por essa avaliação, ela foi tomada pelo motivo certo.

Quanto tempo essa saudade apertada costuma durar?

Varia de mãe para mãe, mas quase todas contam que os primeiros dias são os piores, porque é quando não há notícia. Depois que vem o primeiro retorno da equipe e a primeira visita, a saudade continua, mas sem o aperto no peito de não saber.

A lei me deixa pedir para interromper a internação só por causa da saudade?

Na internação involuntária, a família pode pedir ao médico a interrupção a qualquer tempo. Pode, mas pense com calma antes: a saudade passa, e tirar ele no meio do tratamento pode jogar fora o pouco que ele já conseguiu. Converse com a equipe antes de decidir qualquer coisa.

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