Ser pai de novo na recuperação: como se reaproximar dos filhos
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026
O pai em recuperação se reaproxima dos filhos com presença constante, não com promessas. O caminho costuma ter três partes: cuidar primeiro do próprio tratamento, reconhecer o que os filhos viveram sem se justificar e voltar à rotina deles aos poucos, no ritmo de cada um. A confiança das crianças volta com o que elas veem acontecer, semana após semana.
Muitos homens que passam pelo tratamento contam que a parte mais dura não foi parar de usar, e sim olhar para os filhos depois. Vergonha, culpa e medo de ser rejeitado são comuns e não são motivo para desistir.
O que os filhos viveram enquanto você usava?
Antes de pensar no que dizer, vale entender o lado deles. Filhos de pessoas com dependência muitas vezes cresceram com promessas quebradas, aniversários esquecidos, brigas em casa, vergonha diante dos amigos e o medo de não saber em que estado o pai ia chegar. Alguns viraram o “adulto da casa” cedo demais. Quando a vida da casa passa a girar em torno do uso, a família inteira adoece junto, como explicamos no texto sobre codependência. O que eles sentem pode ser raiva, distância, frieza ou um apego ansioso, e tudo isso é reação natural.
A NACoA, associação norte-americana dedicada aos filhos de pessoas com dependência, resume em sete mensagens o que ajuda a criança: ela não causou o uso do adulto, não consegue controlá-lo e não tem como resolvê-lo; e pode cuidar de si, falar do que sente, fazer boas escolhas e se valorizar. Para o pai, essa lista é um lembrete importante: o seu filho não tem a tarefa de salvar a sua recuperação. Essa responsabilidade é sua e da sua rede de apoio.
Para conhecer melhor essa visão, leia o nosso texto sobre filhos de pais com dependência.
Por que o tratamento vem antes da reaproximação?
Uma dúvida que chega muito à equipe: “posso sair da internação e ir direto buscar meus filhos?”. A vontade de recuperar o tempo perdido é legítima, mas um reencontro feito às pressas, sem plano, pode terminar em frustração dos dois lados. Se houver uma recaída logo depois, a criança vive de novo a mesma decepção.
O Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos EUA (NIDA) explica que a dependência é uma doença crônica que pode ser tratada e que a recaída, quando acontece, é sinal para retomar ou ajustar o tratamento. Na prática, isso quer dizer que a sua estabilidade é a base de tudo: consultas, grupos como Alcoólicos Anônimos ou Narcóticos Anônimos, rotina de sono e trabalho. Um pai firme no tratamento é uma boa notícia para os filhos.
Como pedir desculpas aos filhos sem se justificar?
O pedido de desculpas é um passo, não o fim da história. Algumas orientações que ajudam:
- Escolha um momento calmo, sem plateia e sem pressa. Para criança pequena, vale combinar antes com quem cuida dela.
- Fale do que aconteceu, não do porquê. “Eu faltei ao seu aniversário e você ficou me esperando” diz mais do que uma explicação sobre a sua doença.
- Não peça perdão em troca. O filho tem direito de não estar pronto. Diga que você vai estar por perto mesmo assim.
- Troque promessas grandes por compromissos pequenos. “Nunca mais” assusta e é difícil de acreditar. “Vou te buscar na escola na quinta” pode ser cumprido e conferido.
- Adapte à idade. Com os pequenos, frases curtas e concretas. Com adolescentes, mais escuta do que fala. Com filhos adultos, respeito à vida que eles construíram sem você por perto.
Se a criança ainda não sabe que o pai fez tratamento, veja como explicar a internação do pai para uma criança.
Como retomar a convivência passo a passo
Esta é uma ferramenta prática para montar com calma, de preferência junto com a equipe que acompanha o seu tratamento.
- Converse antes com a mãe das crianças ou com quem tem a guarda. Combine dias, horários e limites. A reaproximação começa pela relação entre os adultos.
- Comece curto e previsível. Uma tarde por semana, um lanche na praça, uma ida à praia de Arembepe. Melhor pouco e sempre do que muito e de vez em quando.
- Esteja lá no horário combinado. Para quem já esperou muitas vezes, pontualidade é a prova mais forte de mudança.
- Escolha programas sem risco para você. Festa de largo, paredão, churrasco com bebida ou o estádio no dia de Ba-Vi podem ser gatilho. Leve isso para o seu plano de prevenção de recaída.
- Entre na rotina deles. Dever de casa, reunião da escola, consulta no posto. Ser pai também é a parte sem graça do dia a dia.
- Assuma as responsabilidades concretas. A pensão em dia é parte da reconstrução; entenda o assunto em pensão alimentícia quando o pai é dependente químico.
- Revise a cada mês. Pergunte aos filhos e à mãe o que está funcionando e o que pode mudar.
Para o lado da família como um todo, o texto sobre como reconquistar a confiança da família aprofunda o que costuma pesar nessa fase.
O que a lei diz sobre a convivência com os filhos?
A dependência química, sozinha, não apaga o vínculo de pai. O art. 19 do Estatuto da Criança e do Adolescente garante à criança o direito de ser criada no seio da sua família, com convivência familiar, em ambiente que garanta o seu desenvolvimento integral. O foco da lei é o bem da criança, e não um rótulo do adulto.
Pelo art. 1.589 do Código Civil, o pai que não tem a guarda pode visitar os filhos e tê-los em sua companhia, conforme o que combinar com a mãe ou o que o juiz fixar. E o art. 1.583, § 5º, diz que quem não tem a guarda continua com o dever de supervisionar os interesses dos filhos, podendo pedir informações sobre saúde e escola.
| Situação | O que costuma acontecer | Caminho |
|---|---|---|
| Há acordo entre os pais | A convivência segue o combinado | Registrar o acordo por escrito ajuda a evitar conflito |
| Não há acordo sobre as visitas | Cabe ao juiz fixar | Advogado ou Defensoria Pública |
| Visitas foram limitadas por causa do uso | Podem vir com condições, como horário diurno ou outro adulto presente | Pedir revisão mostrando o tratamento e a estabilidade |
| Há medida protetiva em vigor | A medida precisa ser respeitada | Nada de contato por conta própria; procure orientação jurídica |
As regras de guarda estão explicadas em detalhe no texto sobre guarda dos filhos quando o pai é dependente. Cada caso tem as suas provas e o seu momento, por isso vale a orientação de um advogado.
Quando procurar ajuda profissional?
Procure a equipe de saúde, um terapeuta ou um advogado quando:
- a culpa ou a rejeição dos filhos está trazendo vontade de usar de novo;
- as conversas com a mãe das crianças sempre terminam em briga;
- o filho mostra sinais de sofrimento, como isolamento, queda na escola ou raiva constante; ele também pode precisar de acompanhamento;
- há processo de guarda, visitas ou pensão em andamento, ou uma medida protetiva;
- já houve uso de novo: avise a equipe e, se for de álcool ou de remédios calmantes, não pare de repente sem avaliação médica.
A terapia familiar é um espaço onde pai e filhos podem falar com a mediação de um profissional, o que costuma tornar a conversa mais segura para todos.
Se a tristeza vier com pensamentos de não querer viver, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o plano terapêutico individual inclui a família, com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas e sigilo. Ajudamos a preparar o retorno à convivência antes da alta. Conheça o nosso trabalho com as famílias. Recebemos pessoas de Camaçari e de toda a Bahia.
Em resumo
- A reaproximação com os filhos começa pela estabilidade do próprio tratamento.
- Pedir desculpas é falar do que eles viveram, sem justificar e sem cobrar perdão.
- Compromissos pequenos e cumpridos valem mais do que promessas grandes.
- A convivência volta aos poucos, combinada com a mãe ou com quem tem a guarda.
- A lei protege o vínculo e o bem da criança; dúvidas sobre visitas pedem orientação jurídica.
Perguntas frequentes
Meu filho não quer me ver depois do tratamento. Devo insistir?
Insistir com pressão costuma afastar ainda mais. O melhor é deixar a porta aberta: dizer que você está ali, mandar uma mensagem curta de tempos em tempos e respeitar o ritmo dele. Para muitos filhos, a mudança precisa ser vista por um bom tempo antes de virar confiança.
Como pedir desculpas aos filhos sem fazer promessas que talvez eu não cumpra?
Fale do que aconteceu e de como isso afetou a vida deles, sem justificar. Troque “nunca mais vou usar” por algo que você controla hoje, como “estou me tratando e vou estar aqui no sábado”. Promessa grande quebrada pesa mais do que pedido de desculpas pequeno cumprido.
Preciso esperar terminar o tratamento para voltar a falar com meus filhos?
Não necessariamente. Cada plano terapêutico tem o seu momento para o contato com a família, e a equipe ajuda a decidir quando e como. O importante é que a reaproximação seja preparada, para não virar mais uma expectativa frustrada para as crianças.
A mãe das crianças pode me impedir de ver meus filhos depois da alta?
As visitas de quem não mora com os filhos seguem o que os pais combinarem ou o que o juiz fixar, pelo art. 1.589 do Código Civil. Se não houver acordo, o caminho é procurar um advogado ou a Defensoria Pública para regularizar a convivência, e não forçar encontros por conta própria.
Dar presentes ajuda a compensar o tempo em que estive ausente?
Presente não substitui presença, e às vezes passa a mensagem de que o passado pode ser comprado. O que mais conta para os filhos é previsibilidade: aparecer no dia combinado, pagar a pensão em dia, lembrar da reunião da escola. Um passeio simples feito com regularidade vale mais do que um presente caro.
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