Redação sobre drogas: argumentos, dados oficiais e repertório sem clichê

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Uma boa redação sobre drogas parte de um recorte claro, usa dados com fonte oficial (Fiocruz, IBGE, UNODC), cita a lei brasileira com precisão e termina numa proposta de intervenção detalhada que respeita os direitos humanos. O que derruba a nota não é a opinião escolhida, e sim o clichê, o número inventado e a proposta vaga do tipo “o governo deve conscientizar a população”.

Este guia foi pensado para estudantes e professores. E, às vezes, quem pesquisa o tema para a escola percebe que ele também está dentro de casa.

Quais recortes do tema podem aparecer na prova?

“Drogas” é um assunto largo demais para 30 linhas. As bancas costumam pedir um ângulo específico, e entender qual é o primeiro passo para não fugir do tema. Os recortes mais prováveis:

  • Saúde pública: dependência como doença tratável e o acesso ao tratamento pelo SUS.
  • Juventude: início precoce do uso de álcool e outras drogas, papel da escola e da família.
  • Segurança e justiça: tráfico, encarceramento e a distinção entre usuário e traficante.
  • Drogas lícitas: álcool, tabaco e remédios controlados usados sem receita.
  • Estigma e exclusão: pessoas em situação de rua e o preconceito que afasta do cuidado.
  • Questão global: o tema como desafio internacional, tratado pela ONU.

Antes de escrever, sublinhe as palavras do tema que delimitam o recorte. Se a proposta fala em “jovens”, um texto inteiro sobre o mercado mundial de cocaína tangencia o tema.

Quais dados oficiais usar na redação sobre drogas?

Repertório bom é aquele que você consegue explicar, não só citar. A tabela reúne números conferidos nas fontes originais e sugere onde cada um rende mais.

FonteO que ela mostraBom para qual recorte
UNODC, Relatório Mundial sobre Drogas 2025Cerca de 316 milhões de pessoas usaram drogas em 2023, 6% da população mundial de 15 a 64 anos; das 64 milhões com transtorno por uso, só 1 em cada 12 recebeu algum tratamentoDesafio global, acesso a tratamento
Fiocruz, III Levantamento Nacional30,1% dos brasileiros de 12 a 65 anos beberam no mês anterior à pesquisa; cerca de 2,3 milhões tinham critérios de dependência de álcoolDrogas lícitas, saúde pública
Fiocruz, mesmo levantamentoMaconha é a ilícita mais usada; o uso de crack provavelmente está subestimado, porque a pesquisa só ouviu quem tinha casaExclusão social, limites dos dados
IBGE, PeNSE 2019Seis em cada dez estudantes de 13 a 17 anos já tinham experimentado bebida alcoólicaJuventude, escola, família

Um detalhe que mostra maturidade: as entrevistas da Fiocruz são de 2015. Dizer isso no texto (“segundo o III Levantamento Nacional da Fiocruz, com entrevistas de 2015”) é mais honesto do que apresentar o dado como se fosse de ontem. Para o retrato completo, veja as drogas mais usadas no Brasil.

O que a lei brasileira diz e como citar sem errar

Citar lei dá peso ao argumento, desde que a citação esteja certa. Os quatro pontos mais úteis:

  1. Constituição Federal, art. 227, § 3º, VII: prevê programas de prevenção e atendimento especializado para crianças, adolescentes e jovens com dependência de drogas. Serve para cobrar o Estado na proposta.
  2. Lei 11.343/2006, art. 28: quem é pego com droga para consumo próprio não vai preso; recebe advertência, prestação de serviços à comunidade ou medida educativa.
  3. Lei 11.343/2006, art. 33: o tráfico tem pena de reclusão de 5 a 15 anos. A diferença entre os dois artigos é o centro do debate sobre encarceramento.
  4. STF, Tema 506: em 2024 o Supremo decidiu que o porte de maconha para uso pessoal não é crime, mas segue proibido, com presunção de usuário para até 40 gramas ou seis plantas fêmeas. Detalhamos em o que o STF decidiu sobre o porte de maconha.

Erro comum: escrever que “a maconha foi liberada” ou que “usuário é preso”. As duas frases estão erradas e mostram ao corretor que o repertório é de ouvir dizer. Um resumo para leigos está em Lei de Drogas explicada para famílias.

Que argumentos fogem do clichê?

Frases como “as drogas destroem famílias” ou “é preciso dizer não às drogas” aparecem em milhares de textos e não provam nada. Troque a frase de efeito por uma relação de causa e consequência que você consegue sustentar:

  • O problema mais comum é lícito. O álcool lidera o consumo no país, e boa parte das campanhas fala só da droga proibida. Isso desloca a atenção do risco mais frequente.
  • Falta tratamento, não só proibição. O dado da ONU de que apenas 1 em cada 12 pessoas com transtorno recebe tratamento permite discutir acesso à saúde, e não só repressão.
  • O estigma afasta do cuidado. Quem é tratado como criminoso ou “sem jeito” tende a esconder o uso e a demorar a pedir ajuda. É um argumento de direitos humanos e de saúde ao mesmo tempo.
  • Palestra única não previne. As normas internacionais de prevenção da UNODC e da OMS valorizam programas contínuos, que desenvolvem habilidades sociais e envolvem a família, em vez de ações pontuais baseadas só em informação ou medo.

Repertório cultural também ajuda, desde que ligado ao argumento. Uma lista comentada está em filmes sobre dependência química.

Como montar a proposta de intervenção passo a passo

A cartilha do participante do INEP avalia a competência 5 pela proposta de solução: ela precisa indicar a ação, quem vai executá-la e como, e respeitar os direitos humanos. Quanto mais detalhada e ligada ao problema discutido, maior a nota. Um roteiro para não esquecer nada:

  1. Escolha o problema que você desenvolveu, não um novo. A proposta responde ao argumento, não ao tema inteiro.
  2. Nomeie o agente com precisão: Ministério da Saúde, secretarias estaduais de educação, escolas, mídia. “O governo” é vago demais.
  3. Diga a ação concreta: ampliar, capacitar, criar, integrar.
  4. Explique o meio: por meio de quê a ação acontece (um programa, uma parceria, uma campanha em tal canal).
  5. Mostre a finalidade: o que muda na vida das pessoas se der certo.
  6. Detalhe um dos elementos: quem será capacitado, com que frequência, em que espaço.

Um exemplo próprio, com cor local: “Cabe às secretarias de saúde dos municípios baianos, em parceria com as escolas, criar rodas de conversa mensais conduzidas por profissionais dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), a fim de aproximar os jovens do cuidado antes que o uso vire dependência.” Para mostrar que iniciativas assim existem, vale citar o programa estadual Corra pro Abraço, que trabalha com redução de danos e encaminhamento para a rede pública.

Evite propostas que ferem direitos, como internar todo mundo à força ou punir com violência. Elas zeram a competência e não resolvem nada. Para professores que querem levar o debate à sala, há ideias em prevenção às drogas na escola.

E quando o tema da redação está acontecendo em casa?

Muitos estudantes chegam a este assunto por dois caminhos: a escola pediu, ou alguém da família está usando. Se for o segundo caso, um passo a passo simples ajuda:

  1. Fale com um adulto de confiança da família ou da escola. Guardar sozinho pesa demais.
  2. Escolha um momento calmo para a conversa, longe de briga e sem a pessoa estar sob efeito.
  3. Fale do que você vê e sente, não de rótulos: “fico preocupado quando você chega assim”.
  4. Busque a rede pública: a unidade de saúde do bairro e o CAPS AD atendem de graça.
  5. Cuide de você também. Grupos de familiares e a escola podem oferecer apoio. Muitas famílias se reconhecem no que explicamos sobre codependência, quando a família adoece junto.
Se alguém em casa estiver desacordado, com dificuldade para respirar ou falando em não querer viver, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, conversamos com famílias que não sabem por onde começar. Oferecemos avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família participando do tratamento, sempre com sigilo. Conheça o tratamento para dependência química. Recebemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Delimite o recorte do tema antes de escrever; “drogas” sozinho é amplo demais.
  • Use poucos dados, sempre com fonte e ano: UNODC, Fiocruz e IBGE.
  • Cite a lei com precisão: usuário não é preso, e o STF não “liberou” a maconha.
  • Troque frases de efeito por argumentos de causa e consequência.
  • Na proposta, nomeie agente, ação, meio, finalidade e um detalhamento, respeitando os direitos humanos.

Perguntas frequentes

Posso defender a descriminalização das drogas na redação?

Pode. O ponto de vista é livre, e a banca avalia a qualidade dos argumentos, não a opinião. O que a cartilha do INEP exige é que a proposta de intervenção respeite os direitos humanos, seja qual for o lado escolhido.

Preciso decorar números exatos para usar como repertório?

Não é obrigatório. Um dado bem lembrado, com a fonte e o ano, vale mais que vários números soltos. Se a memória falhar, prefira uma ordem de grandeza honesta, como “cerca de um em cada doze”, a inventar um valor.

Que palavras usar para falar de quem usa drogas no texto?

Prefira “pessoa com dependência”, “pessoa que usa drogas” ou “usuário”. Termos como “viciado” e “drogado” soam como julgamento e enfraquecem o texto, porque tratam uma condição de saúde como defeito de caráter.

Álcool entra numa redação sobre drogas?

Deve entrar sempre que o recorte permitir. O álcool é uma droga lícita e, pelos dados da Fiocruz, é a substância mais consumida no país. Lembrar disso mostra que você entende o tema além do senso comum da droga proibida.

A decisão do STF sobre maconha liberou o uso?

Não. Em 2024 o STF decidiu que portar maconha para uso pessoal não é crime, mas a conduta continua proibida, com apreensão da droga e medidas educativas. Na redação, apresente a decisão com essa precisão para não perder pontos por informação errada.

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