Sobrinho usa droga: como ajudar sem brigar com a família

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026

Sim, tio e tia podem ajudar, e muito, mas sem passar por cima dos pais. O seu papel é ser a porta que não bate: a pessoa com quem o sobrinho ainda conversa e com quem a mãe dele chora. Você não vai “consertar” o menino. Você vai manter o laço, apoiar quem cria e saber o que a lei deixa fazer.

Sobrinho usa droga: como ajudar sem passar por cima dos pais

Quando a família descobre, o pai grita, a mãe esconde, a avó passa a mão, e o tio vira o “que não se mete” ou o “que quer mandar na casa dos outros”. Nenhum dos dois ajuda.

O lugar do tio e da tia é de fora da casa, mas dentro da família. Você não escuta a porta bater às quatro da manhã. Por isso consegue o que os pais já não conseguem: conversar sem o peso de todas as brigas anteriores. Não desperdice isso virando mais um que briga.

O que você consegue fazer que os pais não conseguem

  • Ser ouvido. Muito jovem já não escuta a mãe, mas ainda escuta o tio que o levava no Dique. Use esse crédito para escutar, não para dar sermão.
  • Ver de longe. Quem mora junto deixa de notar o cheiro, o sono trocado, as coisas sumindo. Você, que vê de quinze em quinze dias, percebe. Anote o que viu, com dia e hora, sem adjetivo.
  • Segurar a mãe. Aqui pode estar a sua maior ajuda. Muita mãe de quem usa droga adoece junto: para de dormir, falta no trabalho, esconde dos outros. Isso tem nome, codependência, que é a família adoecendo junto, e nós explicamos em codependência: quando a família adoece junto. Levar a sua irmã para um grupo de familiares, como o Nar-Anon, e ir junto na primeira vez, pode valer mais que qualquer conselho ao sobrinho.

O que não fazer, mesmo com boa intenção

  1. Não dê dinheiro escondido. Nem “só dessa vez”. Em dar dinheiro para dependente químico a gente mostra por que esse dinheiro acaba virando droga, e por que ele vai pedir sempre a quem dá.
  2. Não guarde segredo que coloca a vida dele em risco. Se ele te contou que está devendo a traficante, que está dirigindo bêbado, que pensou em se matar, você conta aos pais. Combine com ele antes: “Eu guardo quase tudo, menos o que pode te matar.”
  3. Não acuse os pais. “Se fosse meu filho…” fecha a porta da sua irmã, e você fica sem poder ajudar ninguém.
  4. Não ameace de polícia. Usar droga para consumo próprio não dá prisão pela Lei de Drogas; o art. 28 da Lei 11.343/2006 prevê advertência, prestação de serviços e curso educativo. Ameaça vazia só tira a sua credibilidade.
  5. Não “interne” por conta própria. Pegar o menino de surpresa e levar para uma clínica, sem médico e sem os pais, é o caminho mais rápido para perder o sobrinho e a irmã de uma vez.
Se ele estiver desacordado, convulsionando ou falando em se matar, ligue 192 (SAMU) agora. Para quem está sofrendo e precisa conversar, o CVV atende no 188, 24 horas, de graça.

O que a lei permite a quem é tio ou tia

Pela Lei 10.216/2001, art. 6º, a internação sem o consentimento da pessoa, a chamada internação involuntária, acontece a pedido de terceiro, sempre com laudo médico. A Lei 13.840/2019 colocou na Lei de Drogas o art. 23-A, que fala em pedido de familiar ou responsável legal. Tio e tia são família. Então, no papel, você pode assinar o pedido.

Na prática, cuidado. Se o sobrinho é menor de idade, quem responde por ele são os pais, e o serviço vai pedir a mãe ou o pai na frente antes de aceitar o pedido de um tio. Se ele é maior, o pedido pode ser seu, mas quem avalia e decide é o médico, e o serviço avisa o Ministério Público, que é o fiscal desse tipo de internação. Veja o passo a passo completo em internação involuntária: é legal?.

Sobre dinheiro, a lei também é clara. O Código Civil, arts. 1.694 e 1.697, põe o dever de sustento nos pais, avós, filhos e, por último, irmãos. Tio não deve pensão nem tratamento a sobrinho. O que você paga, paga porque quer.

E quando o sobrinho é adolescente e os pais estão parados, o Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 4º, diz que garantir a saúde dele é dever da família e da comunidade, não só dos pais. O art. 98 prevê medidas de proteção quando os pais faltam. É isso que o Conselho Tutelar aplica. Entenda quando acionar em Conselho Tutelar e adolescente usando drogas.

O que fazer esta semana

  1. Converse com a mãe ou o pai antes de falar com o sobrinho. Pergunte o que eles já tentaram e o que eles querem de você. Ajuda que ninguém pediu vira invasão.
  2. Chame o sobrinho para algo normal. Um acarajé na feira de Camaçari, um jogo, uma carona. Não é hora de “ter a conversa”. É hora de ele lembrar que gosta de você.
  3. Diga o que viu, uma vez só. “Vi você chegar assim no São João, fiquei com medo. Se quiser ajuda, eu levo você, sem contar nada que não precise.” Depois fique quieto e escute.
  4. Procure o lugar certo com os pais. O CAPS AD, o posto do SUS para álcool e drogas, atende de graça e sem encaminhamento; veja como o CAPS AD funciona. Para saber se é caso de tratamento fora de casa, leia como convencer um dependente a se tratar.
  5. Cuide da sua irmã. Marque com ela o grupo de familiares e vá junto. Mãe que se cuida aguenta o caminho, que é longo.

Quando é hora de ajuda profissional

Procure avaliação médica quando o sobrinho sumiu de casa por mais de um dia, chegou machucado, está vendendo coisas ou mistura bebida com remédio. Parar de beber de uma vez, sem médico, pode dar convulsão em quem bebe todo dia: é caso de avaliação urgente, não de força de vontade.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o tio e a tia podem vir junto com os pais na avaliação. A equipe faz avaliação psiquiátrica presencial, monta um plano terapêutico individual e mantém a família no tratamento. Na internação involuntária, conduzimos a parte legal. Pergunte se o serviço atende o perfil do seu sobrinho. Veja como a família participa do tratamento e nossa unidade em Camaçari.

Em resumo

  • Tio e tia ajudam de fora da casa, sem mandar nela: escutam, observam e seguram a mãe.
  • Dinheiro escondido e segredo perigoso não são ajuda.
  • Usar droga para consumo próprio não dá prisão; ameaça de polícia só fecha a porta.
  • A lei deixa familiar pedir internação, mas o médico decide e, para menor, os pais precisam estar junto.
  • Tio não deve pensão nem tratamento; o que faz, faz por escolha.

Perguntas frequentes

Posso assinar o pedido de internação do meu sobrinho escondido da minha irmã?

Assinar, pode; esconder, não. Quem decide é o médico, e o pedido não fica em segredo. A Lei de Drogas fala em pedido de familiar ou do responsável legal, e a Lei 10.216 fala em pedido de terceiro, sempre com laudo médico. Se o sobrinho for menor de idade, os pais são os responsáveis e precisam estar na conversa; passar por cima deles só vira briga e atrasa o cuidado.

Minha irmã diz que o filho só fuma um baseado e que eu estou exagerando. Insisto ou deixo quieto?

Nem um nem outro. Não insista em discutir se é grave ou não; mostre o que você viu, com data e sem adjetivo, e deixe a porta aberta. Pais costumam negar primeiro e procurar ajuda depois. Enquanto isso, continue perto do sobrinho e combine com ela que, se ele chegar machucado ou sumir, você vai agir junto com ela.

Meu sobrinho me pede dinheiro escondido dos pais. Dou ou não dou?

Não dê dinheiro vivo. Diga que gosta dele, que não vai bancar o uso e que não vai mentir para a mãe dele. Pode pagar algo concreto na sua frente, como a passagem para a consulta ou o lanche, mas sem esconder dos pais. Segredo com dinheiro no meio vira cumplicidade, e você perde o único lugar que tinha: o de quem não enrola.

Sou obrigado a sustentar ou pagar tratamento do meu sobrinho?

Pela lei, não. O Código Civil põe o dever de alimentos nos pais, nos avós, nos filhos e, em último caso, nos irmãos; tio não entra nessa fila. O que você fizer é por escolha e por amor, e vale dizer isso em voz alta para ninguém cobrar de você o que não é seu dever.

Ele é adolescente e os pais não fazem nada. Posso chamar o Conselho Tutelar?

Pode, e às vezes deve. O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que proteger o menor é dever da família toda e da comunidade, e prevê medidas de proteção quando os pais não dão conta. Antes, converse com os pais e ofereça ajuda; se eles continuarem parados e o menino estiver em risco, o Conselho Tutelar é o caminho, não a polícia.

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