Filho ligou de madrugada pedindo para buscar: o que fazer

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centroAtualizado em 23/10/2026

Foto real do Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari: alojamentos

Quando o filho liga de madrugada pedindo para ser buscado, a primeira decisão não é "ir ou não ir", é "ele corre risco imediato?". Se sim, chame o 192 ou o 190. Se não, combine um ponto seguro e não vá sozinha ou sozinho a um lugar que você não conhece.

Quem recebe essa ligação costuma ficar sem ar, com o coração acelerado e a cabeça dividida entre a culpa e o medo. Ter um roteiro pensado de dia ajuda a decidir sem arriscar ninguém.

Devo buscar meu filho de madrugada?

Depende de três perguntas, nesta ordem:

  1. Ele está em risco agora? Desmaiado, machucado, ameaçado, com falas sobre se ferir ou sem conseguir dizer onde está: é caso de emergência, não de carro da família.
  2. O lugar é seguro para você? Se for um ponto de uso, uma rua deserta ou um local onde ele deve dinheiro, não vá sozinha ou sozinho.
  3. Existe outra pessoa que possa ir junto, ou um ponto seguro? Um posto aberto, a portaria de um prédio, uma UPA, a casa de um parente.
Se ele estiver inconsciente, convulsionando, ferido, ameaçado ou falando em se machucar, ligue 192 (SAMU) ou 190 e dê o endereço. O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça. A página do Ministério da Saúde sobre o SAMU 192 lista situações em que o serviço deve ser acionado, entre elas envenenamento, convulsão, trauma e tentativa de suicídio.

E se eu decidir ir buscar? Que cuidados tomar?

Ir pode ser a decisão certa quando o ponto é seguro e há outra pessoa junto. Antes de sair:

  • avise alguém de confiança para onde vai e a que horas deve voltar;
  • vá acompanhada ou acompanhado, de preferência por um adulto que não esteja alterado;
  • deixe o celular carregado e compartilhe a localização com um familiar;
  • não leve dinheiro além do necessário para voltar;
  • não entre no local onde ele está: peça que ele venha até o carro, e fique com a porta destravada por dentro e o motor ligado;
  • se aparecer qualquer ameaça, saia e ligue 190.

O que falar na ligação sem piorar a situação?

Frases curtas, voz baixa, sem discutir. Algumas que funcionam como um roteiro:

  • "Estou aqui. Onde você está agora? Me diz a rua ou o ponto de referência."
  • "Você está machucado? Tem alguém com você?"
  • "Eu não vou buscar sozinha/sozinho nesse lugar. Vá até [ponto seguro] e eu encontro você lá" ou "Vou chamar quem pode te ajudar agora".
  • "Amanhã a gente conversa de verdade. Agora o importante é você ficar seguro."

Evite cobrar, relembrar o passado ou dizer "eu avisei". De madrugada, com o filho alterado e a família assustada, uma discussão dificilmente leva a algum acordo. Veja também discutir com bêbado adianta?.

E se ele pedir dinheiro ou transporte e depois sumir?

Acontece de a ligação ser o início de um pedido: dinheiro por Pix, "paga o carro de aplicativo", "me deposita agora". Você pode oferecer ajuda de outra forma, sem repassar valor: chamar o transporte em nome da família, pagar direto para o motorista, ir a um ponto seguro. Se o pedido é de dinheiro, a regra do combinado em casa vale. Leia como colocar limites no dependente químico.

Se ele sumir depois da ligação, não saia procurando de madrugada em locais de risco. Tente o contato de novo, avise a quem estiver perto e, se houver preocupação real com a vida, acione o 190. Para os dias seguintes, filho some de casa por dias e volta traz um roteiro.

Como combinar com a família o que fazer na próxima ligação?

A melhor hora para decidir é de dia, com a cabeça fria, junto com quem mora na casa. Um combinado simples:

  1. Quem atende o telefone e quem deve ser avisado em seguida.
  2. Quando se chama o 192 ou o 190 e quem faz a ligação.
  3. Que ponto seguro pode ser oferecido (um endereço que todos conhecem).
  4. O que não se faz: ir sozinho a ponto de uso, dar dinheiro, prometer segredo.
  5. O que se oferece no dia seguinte: conversa, consulta, avaliação de tratamento.

A abordagem chamada CRAFT, estudada com familiares de pessoas que usam álcool ou drogas, trabalha justamente com isso: comunicação calma e limites claros, sem confronto. Um estudo-piloto publicado no Journal of Substance Abuse Treatment comparou formatos desse treinamento para familiares.

E se a ligação se repetir toda semana?

Quando a ligação vira rotina, o problema deixou de ser a noite e passou a ser o padrão. Vale registrar datas e horários num caderno, conversar com a família sobre o combinado e procurar uma avaliação de saúde para a pessoa e orientação para quem atende o telefone. A CAPS AD do município e as unidades de saúde são portas de entrada; a nossa equipe também pode orientar a família.

E no dia seguinte, o que dizer?

Quando ele estiver sóbrio, sem plateia e depois de comer e dormir, é o momento da conversa. Comece pelo que você sentiu ("fiquei com muito medo quando você ligou"), diga o que você pode fazer ("posso te acompanhar numa consulta") e o que não vai fazer. Fale com nossa equipe se quiser ajuda para montar esse roteiro. Veja também não durmo esperando meu filho chegar e chamar a polícia para o filho que usa droga.

Quem busca orientação sobre internação pode ler tratamento para dependência química e conhecer os cuidados com famílias de Salvador e de toda a Bahia. A codependência também merece atenção, porque a família cansada decide pior.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o plano terapêutico individual é feito com avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, a família junto e sigilo. Pergunte se o serviço atende o perfil da pessoa que você quer ajudar.

A internação pode ser uma possibilidade?

Sim. A internação pode fazer parte do tratamento da dependência química, do alcoolismo ou de quadros de saúde mental quando os cuidados fora do hospital são insuficientes. A indicação depende de avaliação médica individual — não é necessária para todas as pessoas e não deve ser decidida apenas pela leitura de um artigo.

No Centro Terapêutico Amor em Cristo Bahia, você pode conversar com a equipe sobre essa possibilidade e os próximos passos. Antes de qualquer decisão, confirme se o serviço atende à idade, ao perfil e às necessidades da pessoa, além das condições de atendimento. O contato pelo WhatsApp não garante vaga nem substitui a avaliação médica.

Conforme o art. 4º da Lei 10.216/2001. Em risco imediato à vida, procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU).

Perguntas frequentes

Se eu não for buscar, sou uma mãe ou um pai ruim?

Não. Decidir com segurança também é cuidado. Amor não obriga a ninguém a ir sozinho a um lugar perigoso de madrugada. Existe meio-termo: chamar ajuda, combinar um ponto seguro, ir acompanhado ou deixar para a manhã.

E se ele estiver dizendo que vai se machucar?

Leve a sério. Se há risco imediato à vida, ligue 192 (SAMU) ou 190 e informe o endereço. O CVV atende 24 horas pelo 188, de graça, e pode orientar quem está do outro lado da linha.

Posso combinar que só atendo o telefone até certa hora?

Pode, desde que a regra seja avisada com calma, em outro momento, e tenha exceção para emergência. Um combinado do tipo “de madrugada eu só saio de casa se for risco de vida, e então chamo o 192 ou o 190” é mais fácil de cumprir do que decidir sob pressão.

Ele ligou chorando e prometendo parar de usar. Devo acreditar?

Acredite no sofrimento, sem transformar a promessa em prova de mudança. A conversa de madrugada mostra que a pessoa pode estar aberta a ajuda; o que sustenta a mudança é combinar, de dia, uma consulta, um grupo ou uma avaliação de tratamento.

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