Marido usuário de drogas: o que a esposa pode fazer sem se perder

Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 19/10/2026

Se o seu marido é usuário de drogas, comece pelo que está nas suas mãos: entenda o que está vendo, converse com ele sóbrio e sem acusar, proteja o dinheiro da casa e os filhos, não guarde nem esconda droga dele e ofereça um caminho concreto de tratamento. Você não causou o uso e não vai resolvê-lo sozinha, mas a sua atitude pesa, e muito, na decisão dele de buscar ajuda.

Quem descobre que o marido usa drogas costuma viver duas angústias ao mesmo tempo: o medo pela vida dele e o medo do que isso pode trazer para a casa, como polícia, dívidas e brigas na frente das crianças. As duas são legítimas.

Marido usuário de drogas: o que está acontecendo com ele (e com você)?

A dependência química é uma doença que muda o funcionamento do cérebro. Com o tempo, a droga passa a ocupar o lugar que antes era do trabalho, da família e do próprio cuidado. Isso não tira a responsabilidade dele pelas escolhas, mas ajuda a entender por que promessas sinceras de parar não se sustentam.

Do seu lado, também há mudança. Muitas esposas que nos procuram contam que passaram a viver em vigília: conferem o celular, contam o dinheiro da carteira, mentem para os parentes, dormem mal esperando o barulho da porta. Esse desgaste tem nome, codependência, e merece cuidado tanto quanto o uso dele.

Que sinais mostram que o uso já virou dependência?

Nem todo uso é dependência, mas alguns sinais indicam que o problema saiu do controle:

  • ele usa mais vezes ou em maior quantidade do que diz que vai usar;
  • some por horas ou dias e volta com explicações que não fecham;
  • o dinheiro desaparece, aparecem empréstimos, objetos da casa são vendidos;
  • fica irritado, desconfiado ou abatido quando não usa;
  • falta ao trabalho, perde compromissos, abandona o que gostava;
  • já tentou parar e voltou, às vezes no mesmo dia.

Cada droga deixa marcas diferentes. Se você suspeita de cocaína, veja os sinais de uso de cocaína; para um quadro geral, os sinais de dependência química.

O que a lei diz sobre o uso, a casa e você?

Essa é uma dúvida frequente das esposas, e a resposta tem três partes.

O uso dele. O art. 28 da Lei 11.343/2006 trata de quem tem droga para consumo pessoal e não prevê prisão: as penas são advertência, prestação de serviços à comunidade e medida educativa. No caso da maconha, o STF decidiu no Tema 506 que o porte para uso pessoal deixa de ser crime e passa a ser infração administrativa. Vender, fornecer ou guardar para outras pessoas continua sendo tráfico, que é crime grave.

Você. A Constituição, no art. 5º, XLV, diz que nenhuma pena passa da pessoa do condenado. Ser esposa de quem usa não faz de você ré. O cuidado está nos seus atos: não guarde droga dele, não leve pacote, não receba dinheiro ou encomenda de desconhecidos e não empreste conta bancária nem documento. Veja quando a família responde por crime do dependente.

A violência. A Lei Maria da Penha (art. 7º) reconhece como violência contra a mulher não só a agressão física, mas também a psicológica e a patrimonial, que inclui reter ou destruir seus bens, documentos e dinheiro. O art. 22 prevê medidas protetivas de urgência, como o afastamento do agressor do lar. A droga pode explicar o comportamento, mas não justifica a violência.

Como proteger o dinheiro da casa e os filhos?

O dinheiro costuma ser o primeiro sinal concreto e a primeira briga. Algumas medidas que funcionam:

O que fazerPor quê
Separar numa conta sua o dinheiro de aluguel, comida e escolaO essencial da família não fica exposto ao uso
Trocar senhas do banco e guardar cartões e documentosEvita saques, empréstimos e compras no seu nome
Não assinar empréstimo, fiança ou cartão adicional para eleO que você assina, você paga
Não pagar dívida com traficanteNão é cobrável na Justiça e costuma gerar nova cobrança

O Código Civil (arts. 1.643 e 1.644) faz os dois cônjuges responderem pelas dívidas das despesas da casa, mas dívida feita para sustentar o uso, sem proveito para a família, em regra é pessoal. Mais detalhes em dívidas do dependente químico: a família paga?.

Com os filhos, a regra é proteção e verdade na medida da idade. Não deixe a criança sozinha com ele sob efeito, não deixe que ela ande no carro com ele dirigindo nessa condição e explique de forma simples que o pai está doente e que a culpa não é dela. Veja como explicar para a criança a internação do pai.

O que fazer agora: um plano para as próximas semanas

  1. Escolha o momento da conversa. Ele sóbrio, você calma, sem plateia. Fale do que você viu e sentiu, não do que ele “é”.
  2. Leve uma proposta pronta. Um horário marcado no CAPS AD, uma consulta, uma avaliação. Pedido vago (“você precisa de ajuda”) costuma esbarrar na negação.
  3. Defina dois ou três limites e cumpra. Por exemplo: droga nenhuma dentro de casa; nada de usar perto das crianças; dinheiro da casa fora do alcance. Veja como colocar limites sem abandonar.
  4. Pare de encobrir. Não invente desculpa para o patrão nem para a família. As consequências do uso precisam ficar com ele.
  5. Reforce o que é bom. Quando ele passa um dia sem usar ou cumpre um combinado, diga isso. Um estudo com familiares de usuários de drogas que recusavam tratamento (Meyers e colegas, 2002) mostrou que treinar a família para mudar a forma de reagir levou mais pessoas a aceitar tratamento do que o simples encaminhamento a grupos de apoio. É a base do método CRAFT.
  6. Cuide de você. Terapia, sua rede de apoio, sua fé, e grupos como o Nar-Anon, feito para familiares de quem usa drogas.

Na Bahia, a porta de entrada gratuita é o CAPS AD, que atende a pessoa que usa e também orienta a família. Para separação, guarda ou medida protetiva, a Defensoria Pública da Bahia atende quem não pode pagar advogado.

Quando é emergência e quando a internação entra?

Risco imediato à vida: procure a emergência mais próxima ou ligue 192 (SAMU). Agressão ou ameaça: 190. Para orientação sobre violência contra a mulher, o Ligue 180 atende 24 horas. Se você ou ele falarem em tirar a própria vida, o CVV atende pelo 188, 24 horas e de graça.

Quando ele está em risco e recusa qualquer ajuda, a Lei 10.216/2001 e a Lei 13.840/2019 permitem a internação involuntária a pedido da família, com indicação médica e comunicação ao Ministério Público, sem necessidade de juiz. Entenda os detalhes em internação involuntária é legal?.

Como podemos ajudar

No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a esposa é orientada desde o primeiro contato. O tratamento tem avaliação psiquiátrica presencial, enfermagem 24 horas, plano terapêutico individual e a família participando, com sigilo. Na internação involuntária, conduzimos a parte legal. Conheça o tratamento para dependência química. Atendemos famílias de Salvador e de toda a Bahia.

Em resumo

  • Dependência é doença tratável; você não causou e não cura sozinha, mas sua reação faz diferença.
  • O uso pessoal não leva à prisão, e a pena não passa para a esposa; não guarde nem transporte nada dele.
  • Proteja o dinheiro da casa e não assine dívidas por ele.
  • Converse sóbrio, leve um caminho pronto e cumpra poucos limites.
  • Violência tem resposta na Lei Maria da Penha; risco à vida, 192.

Perguntas frequentes

Meu marido usa droga dentro de casa. Eu posso ser processada por isso?

Pela Constituição, a pena não passa da pessoa que cometeu o crime, então você não responde pelo uso dele só por ser esposa. O risco muda se você guardar, esconder, transportar ou entregar droga ou dinheiro para ele ou para outras pessoas. Na dúvida, não toque em nada e procure orientação jurídica.

Ele diz que só usa no fim de semana e que tem controle. Devo me preocupar?

O que pesa não é o dia da semana, e sim as consequências: dinheiro sumindo, mentiras, brigas, faltas no trabalho, promessas de parar que não se cumprem. Se isso já acontece, vale uma avaliação profissional, mesmo que ele ache que está tudo sob controle.

Devo contar para a família dele?

Contar para uma ou duas pessoas de confiança costuma ajudar, porque você deixa de carregar tudo sozinha e ganha aliados para a conversa sobre tratamento. Escolha quem acolhe, não quem humilha, e combine o que será dito para não virar um julgamento coletivo.

Posso pedir que ele saia de casa por causa das drogas?

Sem violência, a saída de casa costuma ser assunto de acordo do casal ou de separação, com orientação jurídica. Se houver agressão, ameaça ou destruição dos seus bens, a Lei Maria da Penha permite pedir o afastamento dele do lar como medida protetiva de urgência.

Ele aceita se tratar, mas não quer ser internado. Isso serve?

Serve, e muitas vezes é o primeiro passo possível. O tratamento ambulatorial, no CAPS AD ou com psiquiatra e psicólogo, funciona para muita gente. A internação entra quando o tratamento fora não segura o uso ou quando há risco à vida.

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