Marido bebe e some de casa: o que fazer nessa noite
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Se o seu marido bebe e some de casa, faça três coisas nesta ordem: ligue para quem ele pode estar, mande uma mensagem curta sem briga e, se ninguém souber dele, vá à delegacia. Não existe prazo de 24 horas para registrar: a Lei 13.812/2019 manda registrar na hora. Quando ele voltar, deixe-o dormir e converse só no dia seguinte, com ele sóbrio.
O que está acontecendo quando ele bebe e some?
A história costuma ser parecida. Ele sai “só para tomar uma” depois do trabalho. Diz que volta cedo. O telefone cai na caixa postal. Você põe as crianças para dormir e fica ouvindo o portão.
Quando a bebida vira doença, a pessoa perde a mão no quanto bebe e no quanto fica fora. Não é falta de amor pela família. Depois dos primeiros copos, a cabeça dele não consegue mais parar nem pensar em quem ficou em casa. Por isso o sumiço se repete, e promessa feita de ressaca não segura.
O lado perigoso é outro. Quem bebe muito pode cair, apagar na calçada, ser roubado, brigar ou sair dirigindo. A família tem o direito de pedir ajuda para achá-lo.
Marido bebe e some de casa: o que fazer hora a hora
Siga esta ordem. Ela organiza a noite e deixa tudo pronto se for preciso ir à delegacia.
Nas primeiras horas
- Ligue para três pessoas: o amigo com quem ele costuma beber, a mãe ou irmão dele e o colega de trabalho mais próximo. Pergunte só: “você sabe onde ele está?”.
- Mande uma mensagem curta, sem sermão: “Só quero saber se você está bem. Me avisa.” Cobrança faz o telefone ficar desligado de propósito.
- Anote num papel: a roupa com que saiu, o horário, para onde disse que ia, quanto dinheiro levou, se foi de carro ou moto.
- Repare no telefone dele: se chama ou cai direto na caixa postal, e a que horas ele apareceu pela última vez no WhatsApp. Anote isso também; ajuda a polícia.
Se amanheceu e ninguém sabe dele
- Ligue para os prontos-socorros perto de onde ele costuma ficar. Gente muito bêbada chega sem documento.
- Vá à delegacia e registre o desaparecimento. Leve seu documento, uma foto recente dele e o papel com as anotações. O que levar e como funciona na Bahia está em familiar dependente químico desaparecido.
- Não vá sozinha atrás dele em bar ou ponto de uso. Peça a um parente homem, ou passe o lugar à polícia.
Enquanto espera
- Combine quem atende o telefone e quem descansa.
- Cuide das crianças antes de tudo. Para uma criança pequena, basta: “papai ainda não voltou, a gente está cuidando disso”.
A polícia aceita registrar se ele é adulto e saiu para beber?
Aceita. Para a Lei 13.812/2019, pessoa desaparecida é quem está com o paradeiro desconhecido, “não importando a causa” (art. 2º, I). A lei não pergunta se ele saiu para beber, se já fez isso outras vezes ou se é marido ou filho. Ela diz que a busca é “prioridade com caráter de urgência” (art. 3º) e que o registro vai na hora para o cadastro nacional (art. 8º, § 1º).
Em Salvador, a Polícia Civil tem a Delegacia de Proteção à Pessoa, que cuida dos casos de desaparecimento; a orientação oficial está na página da Polícia Civil da Bahia. Quem mora em Camaçari, Dias d’Ávila, Simões Filho ou no interior vai na delegacia mais perto de casa.
Um detalhe que muita mulher esconde por vergonha: conte à polícia que ele bebe. Não é falar mal dele. É isso que mostra à equipe que ele pode estar em perigo e ajuda a decidir por onde começar a procurar.
Quando o sumiço deixa de ser susto e vira emergência?
Nem toda noite fora é a mesma coisa. Tem situação em que não dá para esperar nem a ida à delegacia.
| O que aconteceu | O que fazer |
|---|---|
| Alguém viu ele caído, desacordado, vomitando sem acordar ou com respiração lenta | Ligue 192 (SAMU) na hora. Não é só “dormir a bebedeira” |
| Saiu dirigindo depois de beber | Ligue 190. Veja também familiar bebe e dirige |
| Mandou mensagem de despedida ou falou que não quer mais viver | Ligue 190 ou 192 e conte isso na delegacia |
| Está sumido há mais de um dia e tem dívida ou briga com alguém perigoso | Delegacia agora, com todos os detalhes |
Beber muito em pouco tempo pode levar a uma intoxicação grave, em que a pessoa não responde, respira devagar ou se engasga com o vômito. Segundo o NIAAA, instituto americano que estuda o álcool, isso é emergência médica.
Em risco imediato à vida, ligue 192 (SAMU) ou 190 (Polícia Militar). Se ele falou em se matar, ou se você está no seu limite, o CVV atende 24 horas pelo 188, de graça, e também pelo site do CVV.
E quando ele chega em casa bêbado ou de ressaca?
É a parte que mais dá errado. Ele bate na porta de madrugada, você está sem dormir, com raiva e alívio ao mesmo tempo. A vontade é despejar tudo. Segure.
Na hora em que ele chega:
- Se ele está só embriagado, sem agressão, dê água e deixe dormir de lado. Conversa com quem acabou de beber é conversa perdida.
- Se chega gritando, quebrando coisa ou ameaçando, não enfrente. Saia com as crianças para a casa de um vizinho e ligue 190.
- Não jogue fora a bebida dele nessa hora. Vira briga e não resolve.
No dia seguinte, com ele sóbrio:
Escolha um momento sem as crianças por perto. Fale do que você viveu, não do que ele é. Uma forma simples de começar:
“Ontem eu fiquei a noite inteira sem saber se você estava vivo. Liguei para o hospital. Eu não aguento mais passar por isso. Preciso que a gente procure ajuda.”
Repare que não tem “você é um bêbado” nem “você não liga para a família”. Tem o que você sentiu e um pedido concreto. Se ele desconversar, não insista naquele dia. Volte ao assunto na próxima vez, do mesmo jeito. Mais frases e o que evitar estão em como conversar com dependente químico sem brigar.
Se ele disser que não lembra de nada, pode ser verdade. Beber muito pode apagar horas inteiras da memória, como explicamos em apagão alcoólico. Isso não desculpa nada, mas mostra que a bebida já está mexendo no cérebro dele.
Se ele, nesse dia, falar “vou parar de vez”, não deixe parar sozinho de uma hora para outra. Quem bebe todo dia há muito tempo e corta de repente, sem médico, pode ter tremor forte, convulsão e confusão mental, o que chamamos de o corpo pedindo a bebida. Parar é bom; parar com acompanhamento médico é o certo. Explicamos melhor em tolerância e abstinência.
O que a lei garante para você e para os filhos?
Você não é obrigada a aguentar violência para “segurar o casamento”. A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) permite que o juiz determine medidas protetivas de urgência, como afastar o agressor da casa e proibir que ele se aproxime de você e dos filhos (art. 22). Estar bêbado não livra ninguém dessa lei.
Para pedir, vá a uma delegacia (a especializada da mulher, onde houver; nas outras cidades, a delegacia comum atende) e registre o boletim de ocorrência. O Ligue 180 orienta mulheres em situação de violência, de graça. Se a casa já virou lugar de medo, veja dependente químico agressivo em casa.
O que fazer para o sumiço não virar rotina?
Depois que a noite passa, a tentação é fingir que não aconteceu. Não finja. Enquanto ele estiver sóbrio e envergonhado, há uma janela para combinar coisas.
- Marque uma avaliação médica. No posto de saúde, no CAPS AD da cidade ou numa clínica. O objetivo é saber o tamanho do problema.
- Combine uma regra simples e cumpra. “Se você não voltar até meia-noite e não atender, eu vou à delegacia.” E vá. Regra que não se cumpre vira piada.
- Chave do carro e da moto ficam com você nos dias em que ele sai para beber.
- Dinheiro da casa separado. Conta sua, cartão seu.
- Procure um grupo para você. Ficar a noite inteira vigiando o portão adoece a família junto; veja codependência: quando a família adoece e os grupos de apoio para familiares.
- Pare de cobrir. Não invente doença para o patrão dele. Não limpe a bagunça da noite.
Se ele reconhece o problema mas não aceita se tratar, veja marido alcoólatra: o que fazer. Se o sumiço virou semana, pode ser hora de pensar em internação, com avaliação médica, como explicamos no tratamento do alcoolismo.
Quando procurar ajuda profissional?
Procure avaliação médica se ele sumiu bebendo mais de uma vez no mesmo mês; acordou sem lembrar o que fez; tremeu ou ficou agitado na manhã seguinte sem beber; bebe de manhã para “curar” a ressaca; já perdeu trabalho, dinheiro ou documento por causa da bebida; ou se você já teve medo dele. Um sinal só já justifica a conversa com um profissional.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, a família é ouvida primeiro. A equipe faz avaliação psiquiátrica presencial, monta um plano terapêutico individual e mantém a família participando do tratamento, com sigilo. Na internação involuntária, orientamos a chegada e conduzimos a parte legal. O Diretor Jurídico orienta sobre documentos, medida protetiva e direitos. Atendemos famílias de Camaçari, de Salvador e de toda a Bahia.
Em resumo
- Primeiro ligue para quem pode estar com ele; depois mande uma mensagem curta, sem briga.
- Não existe prazo de 24 horas: se ninguém sabe dele, registre na delegacia e conte que ele bebe.
- Pessoa caída, sem responder ou respirando devagar é emergência: 192.
- Quando ele chegar bêbado, deixe dormir. A conversa é no dia seguinte, sóbrio, sem rótulo e com um pedido claro.
- Violência não se negocia: 190, boletim e medida protetiva pela Lei Maria da Penha.
- Para o sumiço não virar rotina, avaliação médica, regra cumprida e apoio para você.
Perguntas frequentes
Ele some toda sexta e volta no domingo. Vale registrar na delegacia toda vez?
Vale registrar sempre que você não souber onde ele está e não conseguir contato. A lei não limita o número de registros nem exige que seja a primeira vez. Quando ele voltar, avise a delegacia para encerrar a busca. O sumiço repetido é, em si, um sinal de que a bebida saiu do controle e merece avaliação.
Devo sair de madrugada atrás dele nos bares?
Não sozinha e não de madrugada. Você pode se colocar em risco e, se o encontrar bêbado, a chance de briga na rua é grande. Peça a um parente homem ou a um amigo dele que vá, de dia se possível, ou passe o endereço provável à polícia.
Ele volta e jura que não lembra de nada. Está mentindo para mim?
Pode ser verdade. Beber muito e rápido pode apagar a memória de horas inteiras, mesmo com a pessoa andando e falando. Isso não é desculpa para o que fez, mas é um sinal sério de que o corpo dele já não aguenta a bebida como antes.
Posso trancar a porta e não deixar ele entrar bêbado?
Você pode e deve se proteger se ele chega violento, e nesse caso a saída é a polícia e a medida protetiva. Trancar a porta como castigo, porém, costuma empurrar a pessoa de volta para a rua e para mais bebida. Se ele chega só embriagado, sem agressão, o mais seguro é deixá-lo dormir e conversar depois.
Se eu registrar o sumiço, ele pode ser preso ou internado à força?
Não. O registro de desaparecimento serve só para a polícia ajudar a localizar a pessoa. Não é crime beber nem dormir fora de casa, e a internação contra a vontade só acontece com avaliação médica, dentro das regras da lei. Registrar não vira processo contra ele.
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