Marido internado, como pagar as contas: o que ajuda
Por Gilberto Riccio, advogado (OAB/BA 46.638) e Diretor Jurídico do centro · Atualizado em 20/10/2026
Se o seu marido foi internado e você ficou com as contas, o primeiro dinheiro a buscar é o dele: o salário dos primeiros 15 dias vem da empresa, e a partir do 16º dia entra o auxílio por incapacidade do INSS, que você pode receber por procuração. Depois vêm o Bolsa Família, o benefício eventual do CRAS e a tarifa social de luz. E as contas se negociam antes de atrasar, não depois.
Se ele ainda não aceitou o tratamento, comece pelo guia marido alcoólatra: o que fazer, caso a caso.
O que a lei diz: quem paga o salário dele enquanto ele está internado?
Se o seu marido tem carteira assinada, a Lei 8.213/1991 divide a conta em duas partes. Nos primeiros 15 dias de afastamento, quem paga o salário é a empresa (art. 60, § 3º). Do 16º dia em diante, quem paga é o INSS, pelo auxílio por incapacidade temporária, que o povo ainda chama de auxílio-doença (art. 60).
Para ter esse auxílio, em regra ele precisa ter contribuído por pelo menos 12 meses (art. 25, I). Quem acabou de ser demitido pode ainda estar coberto por um tempo. Quem nunca contribuiu, não tem. O pedido é feito pelo aplicativo Meu INSS ou pelo telefone 135, e precisa do laudo da clínica com o tempo de afastamento. Como funciona esse pedido, com o que a perícia olha, está em auxílio-doença para dependente químico.
Enquanto ele recebe o auxílio, o contrato de trabalho fica suspenso: a CLT (art. 476) diz que o empregado é considerado em licença não remunerada. O emprego fica esperando ele voltar.
Marido internado, como pagar as contas: o que pode entrar de dinheiro
Ninguém vai bater na sua porta para oferecer. Cada uma dessas portas você tem que ir atrás. Esta é a lista, da maior para a menor:
| O que entra | Quem tem direito | Onde pedir |
|---|---|---|
| Salário dos 15 primeiros dias | Quem tem carteira assinada | Na própria empresa, com o atestado |
| Auxílio por incapacidade (INSS) | Quem contribuiu, em regra 12 meses | Meu INSS ou 135, com laudo da clínica |
| Bolsa Família | Família no Cadastro Único dentro da renda da lei | CRAS do bairro |
| Benefício eventual | Família em situação de vulnerabilidade temporária | CRAS do bairro |
| Tarifa social de energia | Família no Cadastro Único que cumpra a regra da lei | Automático pelo cadastro; confirme na distribuidora |
| FGTS | Só em hipóteses fechadas da lei | Caixa |
Duas observações. O Bolsa Família, pela Lei 14.601/2023, olha a renda por pessoa da casa. Com o salário dele fora, a renda da família cai, e uma casa que antes não cabia pode passar a caber. Vale ir ao CRAS atualizar o cadastro. Os detalhes de como a internação entra no Cadastro Único estão em Bolsa Família com dependente internado.
O benefício eventual é pouco conhecido. A LOAS (Lei 8.742/1993, art. 22) prevê ajuda da assistência social em situações de vulnerabilidade temporária, e a internação do provedor da casa é uma delas. Pode ser cesta básica, pode ser um valor em dinheiro, depende do município. Camaçari, Salvador, Lauro de Freitas, cada prefeitura organiza do seu jeito. O que o CRAS faz e não faz está em CRAS ajuda a família do dependente químico.
A tarifa social de energia vem da Lei 12.212/2010 (art. 2º): família inscrita no Cadastro Único, dentro da regra de renda, paga menos na conta de luz. Desde 2021, a lei manda incluir as famílias automaticamente (art. 4º), mas na prática vale ligar para a distribuidora (na Bahia, a Coelba) e confirmar se a sua casa já está com o desconto. O FGTS tem regras fechadas e raramente serve para esse caso; veja sacar FGTS para tratamento antes de contar com ele.
Como receber o salário e o INSS dele sem ele estar em casa?
Aqui mora o maior erro que vemos: a esposa pega o cartão e a senha do marido e vai sacando. Entre marido e mulher parece natural, mas para o banco é outra pessoa usando a conta. Se der problema, o problema é seu.
O caminho certo é a procuração. O Código Civil (art. 653) permite que ele dê a você poderes para agir em nome dele: ir ao banco, pedir o benefício, falar com a empresa. Pode ser feita em papel, assinada por ele, de preferência com firma reconhecida, porque o banco costuma exigir. Muitas clínicas ajudam a organizar isso nos primeiros dias, enquanto ele está lúcido para assinar. Para o INSS, a Lei 8.213/1991 (art. 109) prevê o pagamento a procurador quando o segurado não pode se locomover. Que tipo de procuração fazer e o que colocar nela está em procuração para familiar internado.
Se ele está em internação involuntária e não consegue decidir nada, a procuração não resolve. Aí a conversa é outra, de curatela, e ela precisa de advogado ou da Defensoria.
Quais contas pagar primeiro quando o dinheiro não dá para tudo?
Com metade da renda, não dá para pagar tudo. Então escolha. A ordem que costuma proteger a família é esta:
- Comida e remédio das crianças. Isso não espera.
- Água e luz. O corte acontece rápido e religar custa. Ligue antes de atrasar e peça parcelamento.
- Aluguel. Converse com o dono do imóvel antes do vencimento. Quem avisa com antecedência consegue prazo; quem some leva despejo.
- Gás, internet, celular. Dá para reduzir o plano ou pausar.
- Cartão, crediário e empréstimo. Por último. Juro alto, mas ninguém perde a casa por boleto de loja.
Duas coisas que a lei deixa claras e que tiram peso das suas costas. Primeiro: as dívidas que ele fez sozinho, sem proveito para a casa, são dele. O Código Civil (arts. 1.643 e 1.644) só faz os dois responderem juntos pelo que foi comprado para a economia doméstica, como o mercado e a luz. Empréstimo que ele pegou para sustentar o uso não é seu. O detalhe disso está em dívidas do dependente químico: a família paga?.
Segundo: se as contas já passaram do que a casa consegue, existe a Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021). Ela permite reunir todos os credores numa negociação só, preservando o mínimo para a família viver. O Procon e a Defensoria fazem isso de graça. Veja como funciona a lei do superendividamento.
E uma regra de ouro: não assine nada como fiadora e não pegue empréstimo novo nos primeiros dias, no susto. Primeiro conte o que entra; depois decida.
O que fazer esta semana, passo a passo
- Segunda: pegue na clínica o laudo com o tempo previsto de afastamento e peça a procuração assinada.
- Terça: leve o atestado à empresa dele e pergunte quando sai o pagamento dos 15 dias. Guarde o protocolo.
- Quarta: entre no Meu INSS e peça o auxílio por incapacidade. Anote o número do pedido e a data da perícia.
- Quinta: vá ao CRAS com os documentos da casa. Atualize o Cadastro Único, pergunte do Bolsa Família e do benefício eventual, e leve as contas atrasadas.
- Sexta: ligue para a distribuidora de luz e a companhia de água. Confirme a tarifa social e parcele o que estiver vencendo. Fale com o dono do aluguel.
- Durante a semana: faça uma lista com tudo o que entra e tudo o que vence. Papel e caneta na porta da geladeira resolvem.
Se você também trabalha com carteira assinada e precisa de dias para resolver isso, veja licença para acompanhar familiar em tratamento.
Quando é hora de procurar ajuda de fora?
- A empresa se recusa a pagar os 15 dias ou ameaça demitir: Defensoria Pública ou advogado. Veja como a Defensoria da Bahia atende.
- O INSS negou o auxílio: dá para pedir revisão e, se precisar, ir à Justiça.
- Chegou cobrança, ameaça de penhora ou aviso de despejo: não assine nada antes de uma orientação.
- Você não está comendo direito, não dorme e sente que vai desabar: isso também é urgente. O CAPS e o posto de saúde atendem a família, não só quem usa.
Se alguém da casa estiver em risco de vida, ligue 192 (SAMU). Se você estiver pensando em desistir de tudo, ligue 188 (CVV), de graça, 24 horas.
Como podemos ajudar
No Centro Terapêutico Amor em Cristo, em Monte Gordo, Camaçari, o Diretor Jurídico orienta a família do acolhido sobre laudo, procuração e INSS desde os primeiros dias, e a equipe mantém a família participando do tratamento. Veja como funciona a internação e o atendimento a famílias de Camaçari. Somos particulares; entregamos recibos, relatório com CID e plano terapêutico.
Em resumo
- Salário dos 15 primeiros dias é da empresa; do 16º em diante é o INSS, se ele contribuía.
- Para receber por ele, faça procuração. Não use cartão e senha dele.
- Vá ao CRAS: Bolsa Família, benefício eventual e Cadastro Único atualizado.
- Confirme a tarifa social de luz na distribuidora.
- Pague primeiro comida, água, luz e aluguel; negocie antes de atrasar; não pegue empréstimo no susto.
- Dívida que ele fez sozinho, sem proveito para a casa, é dele, não sua.
Perguntas frequentes
Posso sacar o salário dele no caixa eletrônico com o cartão e a senha?
Não é o caminho seguro. Usar cartão e senha de outra pessoa pode virar problema com o banco e até acusação de fraude, mesmo entre marido e mulher. O jeito certo é uma procuração assinada por ele, de preferência com firma reconhecida, que o banco aceite. Com ela você movimenta a conta em nome dele, sem risco.
Ele trabalhava por conta, sem carteira assinada. Entra algum dinheiro?
Se ele não contribuía para o INSS, não há auxílio por incapacidade. Aí o que sobra é a rede de assistência: atualizar o Cadastro Único, pedir o Bolsa Família se a renda da casa couber nas regras, pedir benefício eventual no CRAS e a tarifa social de energia. É menos do que um salário, mas é dinheiro que muita família deixa de pedir.
A empresa pode mandar meu marido embora enquanto ele está internado?
Enquanto ele recebe o auxílio por incapacidade do INSS, o contrato de trabalho fica suspenso, pela CLT. Na prática, a empresa não pode dispensá-lo nesse período, e o emprego o espera na volta. Se a dispensa acontecer mesmo assim, guarde tudo por escrito e procure a Defensoria ou um advogado.
A conta de luz atrasou e chegou aviso de corte. O que eu faço?
Ligue para a distribuidora antes do corte e peça parcelamento: é mais fácil negociar antes do desligamento do que religar depois. Se a família está no Cadastro Único, pergunte se a casa já está na tarifa social, que dá desconto na conta. E leve o aviso ao CRAS: o benefício eventual pode cobrir uma situação dessas.
Devo pegar um empréstimo para segurar as contas até ele sair?
Pense duas vezes. Empréstimo novo com a renda da casa cortada pela metade costuma virar dívida que não dá para pagar. Primeiro veja tudo o que pode entrar (INSS, Bolsa Família, CRAS, tarifa social), depois negocie as contas que já existem. Só pense em crédito depois disso, e nunca como fiadora de dívida dele.
Mais sobre direitos, trabalho e inss
- Dependente químico tem direito a auxílio-doença? O que diz a lei do INSS
- Marido bebe e não paga as contas: o que a lei diz
- Marido bebe e vende as coisas de casa: o que a lei diz
- Adolescente apreendido com drogas: como funcionam as medidas socioeducativas
- Ministério Público e internação de dependente químico: quando a família pode procurar a Promotoria
- Não consigo pagar a clínica de recuperação: o que fazer